A melhor coisa que comi esta semana: pizza Margherita DOP

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Preço 11,5€ | Restaurante ZeroZero | Parque das Nações

Conhecia apenas duas razões para ir comer ao Parque das Nações, o bairro menos gastronómico de Lisboa. A saber, o Butchers e a Oficina do Gelado. Ora, foi precisamente na ideia de me refrescar com um dos meus gelados de pistáchio preferidos, depois de assistir à prova de salto à vara feminino dos Mundiais de Londres, que larguei o sofá e a venezuelana Robeilys Peinado e fiz-me a Oriente.

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Quando lá cheguei já a loja estava fechada, mas eis que o meu olho de glutão captou uma vidraça com pintarola gourmet mesmo do outro lado da Alameda dos Oceanos, em frente ao Casino Lisboa.

O que é aquilo?, disse para o meu mais novo, também ele grande apreciador de comezainas.

Chegando lá, percebi tudo. A Multifood voltara a atacar. Era a nova ZeroZero, irmã da pizzaria do Príncipe Real, mas com mais espaço e brilho. Logo à entrada, viam-se dois fornos ladeados por paredes forradas de lenha de azinho; no outro extremo uma cozinha aberta, magnífica; em frente, um bar de Prosseco e uma charcutaria.

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“Entramos?”, espicaçou-me o miúdo. Sempre.

Uma empregada guiou-nos e explicou que, embora ainda estivessem em modo de abertura suave (o mesmo que soft opening, rapaziada), já havia quórum. “No dia em que se anunciou nas redes sociais estivemos cheios, facturámos 7000 euros”, confessou. E não admira. Ao todo, a mega pizzaria tem 300 lugares sentados, boa parte deles na enorme esplanada com vista para o rio.

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A carta é idêntica à do ZeroZero do Príncipe Real. Escolhi a Margherita DOP, um portento só comparável à da Mercantina de Alvalade. Não há pizza mais rústica que esta e isso tem tudo a ver com a fermentação natural das farinhas (o poolish), que torna a massa mais saborosa. A passata de tomate é igualmente extraordinária, um puré ácido e doce perfumado de manjericão, domado pelo creme da Mozzarella di Bufala Campana DOP.

Uma coisa tão simples, uma coisa tão boa. Duas características raras no Parque das Nações.

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SOBRE O GELADO DE PISTÁCHIO. DO EPISÓDIO “CONCHANATA” AO PARAÍSO

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Para mim, não há gelado como o de pistáchio. Os meus filhos perceberam há dias como esta convicção é funda e séria. Tínhamos ido à Conchanata e eles assistiram a uma altercação com os donos da loja por causa disto mesmo. Estavam já descansados na esplanada, com uma taça de morango e nata, e eu fiquei para trás a escolher os meus sabores.

–      Você quer mesmo pistáchio?!” – perguntou a senhora atrás do balcão.

–      Sim. Não devia?

–      Eu não gosto nada…

O diálogo podia ser um sketch dos Monty Pynthon, mas era só a dona da geladaria Conchanata a ser a dona da geladaria Conchanata.

A mítica loja da Avenida da Igreja, em Lisboa, sempre teve um atendimento desconcertante. Lembro-me de na minha estreia, há uns anos, pedir um café e quase ser corrido à biqueirada, que aquilo era uma loja especializada, não um snack bar.

Noutra circunstância, fiquei indeciso no instante de dizer o pedido.

[Este comportamento é muito raro em mim, mas extremamente comum no resto da população mundial. Quando perante uma vitrine geladeira, a maioria das pessoas bloqueia, e deve ser de alegria. Anteontem, na Santini do Chiado, por exemplo, vi uma mulher demorar uns dez minutos até se decidir, vinte pessoas atrás de si e ela numa hesitação aflitiva e paralisante. Ora escolhia chocolate, ora morango, ora renegava a ambos, ora pedia conselho à amiga, ao amigo e ao funcionário (dotado de uma paciência canabinoidal), ora desdenhava de todos eles e emaranhava-se de novo no seu próprio processo selectivo.]

Aos três segundos de espera, a imponente dona Conchanata começou a bufar. Aos quatro, fitou-me como um boi antes de investir.

–      Diga lá, por favor.

Pressionado, escolhi limão e tangerina. No outro dia tinha três aftas.

Desta vez, decidi que não iria ceder aos seus jogos psicológicos. Insisti no gelado de pistáchio. Logo à primeira colherada, já a sair para a esplanada, percebi tudo: o pistáchio sabia a amêndoa amarga. Meia volta, aquilo não ficava assim.

–      Desculpe, tem razão em não gostar deste sabor, mas porque o seu pistáchio não é bom.

Ui, ui. Nisto, o marido surgiu lá de trás. Brusco, garantiu que o sabor supostamente estranho do gelado de pistáchio se devia ao facto de a produção daquele sabor obedecer a um método particular.

–      Ninguém compra pistáchio para fazer gelado. O que se compra é a pasta de pistáchio – explicou-se.

Tinha já provado na minha vida uma boa quantidade de gelado de pistáchio e achei-me com autoridade para ripostar.

–      O problema é que este gelado não sabe a pistáchio. Sabe a uma coisa entre o xarope e a amêndoa – asseverei, trémulo.

Ui, ui, ui. O homem ficou ainda mais irado. Nesta altura, sacou do currículo vitae – “Eu sou italiano” – e garantiu que não encontraria diferente. Eu garanti que encontraria. E encontraria. Ao chegar à esplanada, a prole aguardava-me, envergonhada.

–      Por que é que estavas a discutir com o senhor? ­­­– inquiriu a minha filha de oito anos, severamente.

–      Não estava a discutir, estava a debater.

–      Sobre o quê?

–      Gelado de pistáchio.

Saí da Conchanata decidido a fazer prova da minha tese. Nas semanas seguintes, chateei produtores, consultei literatura especializada e experimentei sete gelados de pistáchio diferentes, de entre as melhores lojas de Lisboa.

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A pesquisa foi de tal forma que os meus filhos, quando nos aproximávamos do balcão de uma geladaria, antecipando a escolha, já reviravam os olhos e protestavam, sempre o mesmo, sempre o mesmo, pai!, mas tu afinal és o homem que comia tudo ou és o homem que comia pistáchio!

A Sílvia, que partilhou comigo muitos deles, de início aborrecia-se mas depois começou a entrar no espírito e hoje é uma pessoa extremamente qualificada no assunto.

Ao senhor Conchanata devo dizer o seguinte. Não só todos os seus concorrentes têm gelados de grande qualidade de pistáchio, como ou usam pastas 100 por cento pistáchio ou trabalham o próprio fruto seco.

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A Amorino, por exemplo, tem um incrível gelado de pistáchio importado de Bronte, na Itália, e outro do Bósforo, mais doce e menos interessante. A Fragoleto afirma que desfaz ela própria os pistáchios: o gelado é torrado, concentrado, amanteigado. O da Oficina do Gelado, inaugurada há pouco no Parque das Nações, surgiu escuro, intenso, deliciosamente untuoso, muito bom (diz que o de avelã também se recomenda). Lá bem no topo, os da Artisani e da Santini, muito parecidos, cremosos, o sabor a pistáchio bem presente, aquela ambivalência subtil e  extraordinária de doce e salgado e pequenos fragmentos crocantes do fruto seco conferindo textura.

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É preciso que se diga que todos estes geladeiros são incrivelmente altruístas. O pistáchio é caríssimo, seja ou não em pasta. Se as pessoas tivessem a minha compulsão, algumas lojas já teriam falido. Para se ter uma ideia, 250 gramas de pasta 100 por cento de pistáchio de Bronte custa 35 euros, encomendando na Internet. Os turcos e os iranianos são mais baratos, mas oferecem menos garantias de qualidade.

Compreende-se, por isso, de alguma forma, que o senhor Conchanata compre pastas de mistura ou com extracto de amêndoa. O que não se compreende é que propague que todos fazem igual. Não fazem, e isso tem um custo, honra lhes seja feita. Para nossa felicidade.