Escritores gourmet – John Fante

John Fante

Não bastasse ser da melhor escola literária norte-americana do século XX, criada entre Dostoyevsky e Hemingway, culta mas desafectada, cómica mas subtil, John Fante era também um gastrónomo notável e escreveu como ninguém sobre cozinha italiana.

A sua mãe, natural de Abruzzo, foi dessas domésticas com um enorme talento culinário que levou para os EUA o receituário tradicional do seu país e assistiu impávida e serena ao apogeu da pizza. The Brotherhood of the Grape (Confraria do Vinho, em português, tradução esgotada da Teorema), mostra-nos como a comida de que mais gostamos é, tantas vezes — é quase sempre —, memória e afecto.

Particularmente comoventes são os trechos sobre a cozinha da família. Fante tem uma das descrições mais exultantes da história da literatura sobre comida de mãe, texto que é também descrição poderosa da cozinha como salvadora de almas perdidas. Tradução minha e extremamente livre.

“A cozinha. La cucina, a verdadeira pátria, caverna quente de bruxas bondosas na terra desolada da solidão, potes de doces poções borbulhando sobre o fogo, caverna de ervas mágicas, alecrim e tomilho e sálvia e orégãos, bálsamo de lótus que traz sanidade aos lunáticos, paz aos aflitos, alegria aos tristes, pequeno mundo de vinte metros quadrados, a cozinha como um altar, a mesa o círculo mágico onde os mais novos são alimentados, os mais velhos atraídos pelo regresso à infância, o gosto do leite materno ainda assombrando as suas memórias, aromas entrando-lhes pelas narinas, olhos brilhantes, o mundo perverso recuando enquanto a velha mãe bruxa abriga a sua ninhada dos lobos lá fora.”