Conchanata, o regresso

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Passei quatro anos sem ir à histórica geladaria da Avenida da Igreja. Depois da Tragédia do Pistáchio, dei por encerradas as investidas, num misto de receio físico e orgulho pessoal. Há tempos, todavia, num dia de calor magrebino, regressei com os miúdos (“pai, por favor, não te zangues com o senhor”), e constatei que o templo dos Tarlattini, a família mais freak da gastronomia lisboeta, continua um sítio divertido e está mais sereno. Meia dúzia de notas de reportagem:

  1.  À minha frente estava uma senhora que hesitou trezentas vezes nos sabores e, no fim, pediu quatro copos de água. A mãe Conchanata a tudo sorriu. Soup for you.
  2. Os filhos Conchanata cresceram e têm muitas tatuagens.
  3. A mãe Conchanata tatuou um mocho no braço e ganhou um piercing no nariz.
  4. O pai Conchanata, que já teve uns bigodes épicos, apresenta agora uma barba de druida em V, igualmente épica.
  5. As filas imensas da Conchanata estão para as lojas de gelados como o “quase esgotado” está para os concertos da ZDB.
  6. A gerência continua a optar por ter só uma pessoa tatuada a servir de cada vez, embora estejam outros familiares tatuados nas imediações, aparentemente disponíveis.
  7. Os clientes da Conchanata continuam a usar pullover aos ombros.
  8. Os clientes da Conchanata continuam a reservar mesas na esplanada antes de estarem servidos.
  9. Não há qualquer cartaz nas paredes respeitante a reservar mesas na esplanada, apesar de haverem vários cartazes respeitantes a várias coisas.
  10. O gelado de pistáchio da Conchanata já não é uma mescla de amêndoa amarga e agora sabe mesmo a pistáchio.
  11. Pedir quatro copos de água é o mínimo que se deve pedir depois de ingerir um gelado da Conchanata.
  12. A Conchanata continua irresistível.

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Pitango Gelato

Sempre que alguém nos sugere um sítio esse sítio perde – vá lá — 10 por cento do encanto. Pode ser o melhor restaurante onde já alguma vez havemos de comer, pode ser a maior pechincha das nossas vidas. Mas não fomos nós que o descobrimos. E descobrir é fixe.

Talvez, por isso, um dos melhores momentos gastronómicos da viagem a Washington DC tenha sido a Pitango Gelato.

Já estávamos no último dia da estadia e eu ia do Newseum para o Museu do Crime (ambos bem interessantes, por sinal), a subir a Rua 7 em direcção a Chinatown. Na porta da loja, vidrada, estava um artigo do Washington Post, que elogiava os produtos usados: leite fresco, vacas de pasto da Pensilvânia, ovos de galinhas criadas ao ar livre — tudo muito organic e sustentável.

Uma vez lá dentro, perguntei ao senhor o que recomendava e o senhor não deu a resposta que os senhores dão em 43 por cento das vezes (“depende”, segundo contas rigorosas feitas por mim agora mesmo).

Cream e Pistáchio”

Assim, sem hesitações.

Cinco dólares e meio, um copinho com dois sabores. Mal dei a primeira colherada, percebi a textura cremosa mas densa (bem diferente da dos gelados, com maior concentração de gordura láctea mas menos elasticidade). Depois, aquilo entrou na boca e há um momento em que, tenho quase a certeza, fechei os olhos.

Nunca um pistáchio saberá tão bem como aquele sorvete de pistáchio. Mesmo admitindo que venha de Bronte, na Sicília, e diz que vem. Não tem comparação. Quem dera ao pistáchio.