A melhor coisa que comi esta semana: espetadas de frango

Imagem

Preço 3,5€ | Restaurante Mesón de Tapas | El Corte Inglés (Lisboa)

IMG_8380

As verdadeiras barras de tapeo espanholas são a coisa mais parecida com um bar barulhento às quatro da manhã. Não há nenhum outro sítio onde as pessoas conversem tanto e tão alto como ao balcão de uma bodega ao final da tarde. Lamentavelmente, não temos cá nada disso.

A coisa mais aproximada  em Lisboa é a barra do El Corté Inglés. Nem tudo é bom, as senhoras de cabelo armado do Bairro Azul não têm o salero das guapas sevilhanas mas a carta é tentadora e há aquele frenesim de cañas a bater no balcão. Eu ia lá só para comer iscas do cachaço de bacalhau e salada russa com ventresca mas agora estou fã das espetadas de frango frito.

Todas as semanas juro não voltar a comer frango, mas há sempre um prato que me faz esquecer que o bicho é farinha com asas. É o caso deste. A pele é crocante, a carne tenra e suculenta e o molho denso e picante, excelente para ensopar patatas bravas.

 

Anúncios

Este texto está em soft opening

open-10

Estou ainda a fazer testes para esta prosa. Não tenho a certeza se vou escrever sobre uma bavaroise, sobre um ramen ou sobre batatas fritas. Em todo o caso, quando me decidir sobre o assunto, desde já peço compreensão para eventuais lapsos e falhas da prosa, que estará a ser afinada nas próximas semanas, quiçá, meses. Alerta-se para o facto de os jornalistas estarem proibidos de citar este post enquanto decorrer o período de soft opening.

PS: O regime de soft opening não implica qualquer desconto no valor mensal da subscrição deste blogue. 

 

A melhor coisa que comi esta semana: pizza Margherita DOP

IMG_8048

Preço 11,5€ | Restaurante ZeroZero | Parque das Nações

Conhecia apenas duas razões para ir comer ao Parque das Nações, o bairro menos gastronómico de Lisboa. A saber, o Butchers e a Oficina do Gelado. Ora, foi precisamente na ideia de me refrescar com um dos meus gelados de pistáchio preferidos, depois de assistir à prova de salto à vara feminino dos Mundiais de Londres, que larguei o sofá e a venezuelana Robeilys Peinado e fiz-me a Oriente.

transferir

Quando lá cheguei já a loja estava fechada, mas eis que o meu olho de glutão captou uma vidraça com pintarola gourmet mesmo do outro lado da Alameda dos Oceanos, em frente ao Casino Lisboa.

O que é aquilo?, disse para o meu mais novo, também ele grande apreciador de comezainas.

Chegando lá, percebi tudo. A Multifood voltara a atacar. Era a nova ZeroZero, irmã da pizzaria do Príncipe Real, mas com mais espaço e brilho. Logo à entrada, viam-se dois fornos ladeados por paredes forradas de lenha de azinho; no outro extremo uma cozinha aberta, magnífica; em frente, um bar de Prosseco e uma charcutaria.

img_8043.jpg

“Entramos?”, espicaçou-me o miúdo. Sempre.

Uma empregada guiou-nos e explicou que, embora ainda estivessem em modo de abertura suave (o mesmo que soft opening, rapaziada), já havia quórum. “No dia em que se anunciou nas redes sociais estivemos cheios, facturámos 7000 euros”, confessou. E não admira. Ao todo, a mega pizzaria tem 300 lugares sentados, boa parte deles na enorme esplanada com vista para o rio.

IMG_8040

A carta é idêntica à do ZeroZero do Príncipe Real. Escolhi a Margherita DOP, um portento só comparável à da Mercantina de Alvalade. Não há pizza mais rústica que esta e isso tem tudo a ver com a fermentação natural das farinhas (o poolish), que torna a massa mais saborosa. A passata de tomate é igualmente extraordinária, um puré ácido e doce perfumado de manjericão, domado pelo creme da Mozzarella di Bufala Campana DOP.

Uma coisa tão simples, uma coisa tão boa. Duas características raras no Parque das Nações.

A Melhor Coisa que Comi esta Semana: cabeça de atum-rabilho

Preço 9,5€ | Restaurante Rastilho | Barcarena |

A língua portuguesa (e não só) está cheia de expressões idiomáticas para achincalhar pessoas tontas. Desde cabeça de alho chocho, a cabeça de galinha, passando por cabeça de abóbora e de melancia, há todo um mundo animal de metáforas para diminuir intelectualmente uma pessoa.

A mais desadequada dessas expressões é cabeça de atum. O atum tem frequentemente uma cabeça grande e é um peixe conhecido por diversos talentos, o maior dos quais é dar-nos da melhor carne que há.

Prova disso foi o petisco que esta semana comi no Rastilho, um mimoso restaurante familiar em Barcarena. Veio para a mesa em forma de pequenos bifinhos de cabeça de atum, limpos de ossos e espinhas, ligeiramente braseados só com sal, e derretiam-se na boca de tão gordos, pequenas lascas a lembrar o-toro, da barriga do bicho.

Continuar a ler

Escritores gourmet – John Fante

John Fante

Não bastasse ser da melhor escola literária norte-americana do século XX, criada entre Dostoyevsky e Hemingway, culta mas desafectada, cómica mas subtil, John Fante era também um gastrónomo notável e escreveu como ninguém sobre cozinha italiana.

A sua mãe, natural de Abruzzo, foi dessas domésticas com um enorme talento culinário que levou para os EUA o receituário tradicional do seu país e assistiu impávida e serena ao apogeu da pizza. The Brotherhood of the Grape (Confraria do Vinho, em português, tradução esgotada da Teorema), mostra-nos como a comida de que mais gostamos é, tantas vezes — é quase sempre —, memória e afecto.

Particularmente comoventes são os trechos sobre a cozinha da família. Fante tem uma das descrições mais exultantes da história da literatura sobre comida de mãe, texto que é também descrição poderosa da cozinha como salvadora de almas perdidas. Tradução minha e extremamente livre.

“A cozinha. La cucina, a verdadeira pátria, caverna quente de bruxas bondosas na terra desolada da solidão, potes de doces poções borbulhando sobre o fogo, caverna de ervas mágicas, alecrim e tomilho e sálvia e orégãos, bálsamo de lótus que traz sanidade aos lunáticos, paz aos aflitos, alegria aos tristes, pequeno mundo de vinte metros quadrados, a cozinha como um altar, a mesa o círculo mágico onde os mais novos são alimentados, os mais velhos atraídos pelo regresso à infância, o gosto do leite materno ainda assombrando as suas memórias, aromas entrando-lhes pelas narinas, olhos brilhantes, o mundo perverso recuando enquanto a velha mãe bruxa abriga a sua ninhada dos lobos lá fora.”

E a melhor manteiga portuguesa é…

Esta.

IMG_5785

Depois de várias provas cegas com manteigas de vaca, é este o veredicto. A Uniflores é de uma intensidade insuperável. Tem 80 por cento de gordura, leva só natas batidas e bastante sal grosso mas, depois de a provarmos, as manteigas de larga distribuição parecem sensaboronas.

Em segundo lugar, ficou a Rainha do Pico, também dos Açores, e em terceiro a Marinhas, de Esposende.

Hoje de manhã, liguei para a Cooperativa Ocidental da Ilha das Flores, para lhes dar os parabéns. Atendeu-me uma senhora muito simpática, que presumo ser administrativa, mas podia ser a gerente. Sabia do que falava.

Bom dia, estou a falar do Continente.
Era para vos dar os parabéns.
A vossa manteiga é muito boa.

Muito obrigada. 

Mas queria também dizer-lhe uma coisa.
Ela é muito cara. Eu só a encontro a
mais de 5,50€.

A nossa manteiga é cara, sim…

Porque é que é tão cara?

Terá de perguntar também ao distribuidor
de Lisboa, que vende para as lojas.
Mas é uma manteiga artesanal e isso tem um custo.

O leite não vem de fora?

Não! A nossa manteiga é toda feita
com leite de vaquinhas aqui da Ilha das Flores. 
As ilhas são todas muito distantes umas das outras.
Você tem de vir cá e conhecer isto para perceber.

Vou, sim. Está prometido.

Ainda sobre o carapau. Tem ou não cara de cavalo?

IMG_7200

 

Há um livro fabuloso de peixe e marisco, North Atlantic Seafood, um clássico de 1976, que fala no carapau como um bicho com cara de cavalo, expressão que justificaria o seu nome em inglês, Horse Mackerel.

“Se olharmos com suficiente atenção,
tenho o pressentimento que iremos ver algo
parecido com um cavalo”,

escreve Alan Davidson, contrariando a tese, defendida por outros, de que o “horse” se referia antes à inferior qualidade do “trachurus trachurus”. O autor depois cita especificamente a gastronomia tuga, como a grande cozinha do carapau.

“Trata-se de um peixe de qualidade média,
bastante comestível quando grelhado. No entanto,
os portugueses fazem coisas interessantes com ele.

Aqui só lhe damos uma receita, o carapau de escabeche,
mas há outras no Algarve e nas ilhas Berlengas.”

Alguém sabe qual é a receita das Berlengas a que Alan Davidson se refere? E alguém já vislumbrou a tal cara de cavalo?