O chef João Rodrigues quer mais verdade na cozinha

Chef joão Rodrigues, Feitoria, Altis Belém.Foto-Paulo Barata 2016

Antes de serem cozinhados, os produtos são mostrados aos clientes. Foto de Paulo Barata (Amuse Bouche).

A única situação em que esperar pode ser reconfortante é quando se está no lobby de um hotel de luxo. Afundarmo-nos num sofá de pele, a snifar ambientador cinco estrelas e a ver pessoas entrar e sair é uma sessão de spa e uma aula de antropologia cultural.

Enquanto aguardo no Altis Belém pelo chef João Rodrigues, passam por mim todo o tipo de humanos. O casal de franceses enfadados um com o outro; a trintona inglesa num fim-de-semana solitário de tinder e fitness; japoneses com miniaturas de Torres de Belém; chinesas com sacos de roupa de grife.

Alguns deles jantarão nessa mesma noite no Feitoria, o restaurante do hotel que é mais do que um restaurante de hotel. Outros terão de esperar, que a casa tem estado cheia.

O sucesso deve-se em grande medida ao homem que, minutos depois, está à minha frente. João Rodrigues não tem a pose rock’n roll dos chefs da nova geração, nem um programa na televisão. Não se vê uma tattoo, não há qualquer afectação na voz nem nos gestos, não é da Linha nem do gueto, não é hipster nem é beto. Parece só uma pessoa normal com uma preocupação anormal — a verdade.

“Há um distanciamento na restauração com a verdade. Nota-se uma apetência pela estética, pela comunicação, pelo lado social. Mas é preciso que as pessoas saibam a verdade sobre o que estão a comer.”

Arranca assim a conversa. O que João Rodrigues parece querer dizer é que a alta cozinha anda a fazer o mesmo que a indústria de processados. Junta uns pozinhos, emulsiona, gelifica, desidrata, faz um embrulho bonito, fotografa e manda para a mesa. Quem come muitas vezes não sabe o que come. E muitas vezes é melhor não saber.

A mudança do paradigma passa por um “compromisso com a verdade”. Passa por ter “os melhores produtos” e passa “por mostrá-los”.

Literalmente.

É isso que agora acontece com o novo menu do Feitoria, chamado Matéria. A ideia é trazer à sala o produto principal de que é feito o prato que o cliente pediu, antes de ele ser submetido à ourivesaria de João Rodrigues. A escolha depende do que existe de melhor em cada época e do que os fornecedores conseguem. Pode ser um choco inteiro, os magníficos carabineiros algarvios, um pregado gigante ou os ouriços que entram no molho.

Feitoria - camarão

As cascas do carabineiro são esmagadas nesta magnífica espremedora francesa. A foto é outra vez do Paulo Barata (Amuse Bouche).

No fundo, trata-se de uma versão mais cómoda e sofisticada da vitrina, sendo que num estrela Michelin não pode haver concessões à qualidade.

Mas que produtos são estes? Quais são as jóias da coroa do Feitoria?

Na carne de bovino, João Rodrigues anda a gostar particularmente da vitela arouquesa e escolheu as Carnes Jacinto, de Sérgio Ribeiro, como seu fornecedor.

“O Sérgio consegue escolher sempre os melhores animais, sempre com muita gordura. Ele anda pelo país a pesquisar e faz essa selecção como ninguém.”

Quanto à charcutaria e ao porco, não haja ilusões: a raça alentejana é insuperável, mas são os espanhóis quem mais nela aposta e melhor a trata, diz João Rodrigues. Seja na presa do cachaço que entra no prato Matança, talvez o mais icónico do menu Matéria, seja no presunto, tudo o que é porco ibérico vem da Ibéricos Maldonado, do espanhol Manuel Maldonado. A transformação faz-se em Albuquerque, Badajoz, mas muitos animais crescem no montado do Alentejo.

“O Manuel Maldonado controla todo o processo, desde a pastagem até ao abate”.

Outro fornecedor de matéria-prima constante é a Quinta do Poial. Aqui não há surpresa. A Quinta do Poial distribui legumes biológicos por muitos outros restaurantes de topo e está acessível a toda a gente no mercado biológico do Príncipe Real, aos sábados. João Rodrigues quer no entanto ter mais domínio sobre a produção, pelo que, juntamente com o seu subchef, começou a cultivar um terreno com um hectare, do outro lado do rio.

“A horta fica no Pinhal Novo e vamos lá todas as semanas. Para já tiramos rabanetes e cenouras, mas a ideia é que aquilo cresça”.

Para além disso, o chef ainda vai buscar pinhão e pinhoadas a Alcácer do Sal, que usa na sobremesa “Alcácer do Sal – eucalipto, arroz e pinheiro”; ervilhas a uma mercearia de Algés; e flores de cheiro à mata de Monsanto.

Nos peixes, a origem do produto é sempre mais volátil. Há coisas de Peniche, como o camarão, frequentemente aparecem carabineiros do Algarve, choco de Sesimbra. Certo é que vem tudo fresco, como se comprova de cada vez que os bichos chegam à sala para a certificação da matéria — experiência que a maioria aplaude mas alguns, mais sensíveis, acham excessivamente realista.

“Há quem veja o peixe, sobretudo estrangeiros, e depois já não queira comer o prato”.

A questão é: se isto pode ser radical, aguardamos ansiosamente por saber o que acontecerá se o chef incluir no menu, e na bandeja, um dos produtos que anda a pesquisar. A saber: pulgas do mar.

Aviso: O Homem que Comia Tudo, depois de propor a entrevista a João Rodrigues, foi simpaticamente convidado para jantar no Feitoria, por forma a experimentar o menu Matéria, pretexto para a conversa. No final da refeição, não lhe foi debitada a conta, circunstância que poderá ter tornado o seu espírito mais benevolente.   

O caso Olivier

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Quem leu a imprensa especializada das últimas semanas pode ter achado que havia um novo fenómeno gastronómico na cidade. O Absurdo, mais um restaurante de Olivier, mereceu destaque de primeira divisão em quase todo o lado, do Público à GQ e à Time Out, passando pela NiT e pela Evasões, até a bloggers com muitos milhares de seguidores que depois vão ao Zomato completar serviço e enganar a malta.

Ora, sucede o seguinte. Aquilo é mau, muito mau. Fui lá no outro dia e não queria acreditar. Começa por o espaço ser pobrezito: como dizia um amigo que me arrastou para o desastre, tem inspiração de Pinterest foleiro e construção de cadeia de fast food. Quanto às sandes balançam entre a banalidade e a bosta.

Éramos três à mesa (às mesas, o restaurante estava vazio) , experimentámos três sandes e os três saímos desconsolados e tristes. Maus produtos, más receitas, mau sabor, brioches medíocres. Para se ter uma ideia, imagine-se um bitoque dentro de um pão de leite ou, pior, bacalhau com hummus dentro de pão de leite. Horrível, horrível.

Pergunto: como consegue Olivier sempre tanto noticiário e bajulação? Como consegue que se escrevam prosas de milhares de caracteres em todo o lado, todas elas cheias de histórias da carochinha sobre a maior isto, o mais aquilo…?

Eu digo-vos como é que ele consegue: com um jornalismo que deixou de ter filtro, deixou de ter tempo para pensar e deixou de ter força para se opor a pessoas que compram comunicação e publicidade a peso de ouro e que usam os outros truques todos (e são muitos e sofisticados) para calar e fazer escrever. Não é fácil parar isto. Já estive em posição de parar e nem sempre consegui.

Uma tristeza. Um absurdo.

O misterioso caminho até aos barfi

A comida pode ser um caminho.

Um dos caminhos mais fascinantes para a comida é o que nos leva à cantina do templo hindu, ali onde Telheiras encontra o Lumiar. É um dos meus restaurantes preferidos para levar amigos, também por causa do caminho.

Quando me aproximo do templo mastodôntico e conduzo para a cave, sinto sempre um certo desconforto no pendura, “para onde é que me levas?”, “os hindus são pacíficos, não são?”, “diz à minha gata que a adoro”. O parque de estacionamento é um sítio escuro, frio e vazio, cheio de colunas, onde facilmente caberia a frota da Rede Expressos ou uma coreografia de Bollywood com criminosos de bigode traficando caril ou as cenas que os indianos traficam.  

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Do carro ao restaurante, todavia, são 15 segundos e lá dentro só acontecem coisas boas. As senhoras que servem são simpáticas, a comida é da vegetariana que não se nota e servida num buffet curto mas completo, onde entra sempre uma sopa (a de lentilhas, com massala, alimonada e picante, é extraordinária), pão feito na hora, arroz, guisados de legumes e leguminosas, tudo apurado e aromático como um mercado de Gujarat.

Sucede que tão interessante quanto o restaurante é a fábrica de doçaria e aperitivos que funciona na cozinha. Quase toda a gente acaba de comer e acorre ao balcão para se abastecer e levar para casa. Há vários snacks salgados, tudo frito, a maioria feitos com farinha de grão e especiarias. Da última vez trouxe uma variedade com farinha de lentilhas, crocante e picante, que se tornou a favorita cá de casa.

A grande novidade para mim, todavia, foram os doces. Os mais interessantes são feitos com farinhas de frutos secos, manteiga e açúcar – à semelhança dos que se podem encontrar nos restaurantes e cafés bengalis da Rua do Benformoso, ao Martim Moniz. Conhecidos como barfi ou burfi são uma instituição culinária na Índia e também um filme de sucesso.

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Há mais do que uma variedade (pistáchio é uma delas) mas eu experimentei o barfi de caju e fiquei viciado. Desfazem-se na boca lentamente, sem nunca o açúcar se impor. O sabor do caju não é imediato, antes vai-se revelando e acaba por encher a boca e pedir um chá e uma manta. Cada saquinho custa quatro euros, preço alto mas justo.

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Façam-se ao caminho.

Alameda Mahatma Gandhi (Telheiras, Lisboa). 21 752 44 59

O ÚLTIMO HAMBURGUER EM PARIS

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Fica aqui o roteiro de alguns dos sítios por onde passei em Paris, todos citados na imprensa como restaurantes do momento ou clássicos da cidade. Nem todos extraordinários.

Le Servan

Aberto em Abril, é talvez o restaurante com mais onda (e imprensa) do momento. David Chang, o chef estrela norte-americano, esteve lá há dias. Situado no sofisticado bairro de Marais (muito Lower East Side) tem à frente duas irmãs, uma delas com experiência na alta cozinha francesa (L’Asperge, de Alain Passard, e L’Astrance, de Pascal Barbot).

Sabendo isto, tentei a minha sorte com uma reserva para o almoço. Comecei a ligar para lá mal aterrei em Orly, mas fui remetido para o atendedor de chamadas. Só consegui chegar à fala quatro dias depois: havia lugar, sim senhora, e para esse mesmo dia.

Chegado ao local, identifiquei de imediato uma das simpáticas donas. O espaço pequeno, vinte e poucos lugares, mobiliário em segunda mão (onde já vi isto?), colunas sem reboco, ambiente sem dress code, égalité, égalité! À minha frente, dois homens das obras vestidos à homens das obras, camisolas cavas e calças pintalgadas, a serem atendidos como se fossem o Bono Vox. Vive la France!

Não havia escolha à carta, só menu de almoço. Pedi as sardinhas cruas para entrada: duas delas, filetadas, sem espinhas; em volta uma salada de coentros, flor de manjericão, tomates cereja saborosíssimos e groselhas. Fresco, aromático, Portugal e Vietname no mesmo prato.

Vieram depois dois blocos de entremeada de leitão tenros, a pele estaladiça, espicaçados por um jus de carne tipicamente francês, bem feito. A acompanhar, milho: em grão, com chalotas e molho de manteiga e limão, e em maçarocas micro, assadas.

Para sobremesa, mousse de queijo fresco com frutos vermelhos e destroços de suspiro. Combinação clássica e vencedora.

Bebeu-se uma cerveja artesanal de Paris e um copo de vinho tinto sobre o qual não apontei a referência, mas que me pareceu fracote. Serviço atencioso e sorridente.

A conta uma boa surpresa: 36 euros. Em todo o caso, pergunta-se: tanta excitação, porquê?

 

Higuma

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Andava já há algum tempo para visitar o restaurante onde Francisco Lopes, do extinto Assuka, trabalhou e aprendeu a fazer as suas sopas Ramen, há mais de 20 anos. O Higuma é, ainda hoje, um dos locais de referência em Paris para comer esta sopa japonesa (de origem chinesa). O seu sucesso foi de tal ordem que a empresa abriu outros restaurantes na cidade.

Fomos ao da Boulevard des Italiens, junto à Opera, por questões práticas. A carta é praticamente igual à da do Assuka, inclusive as denominações das sopas como “Lamen” (e não “Ramen”), termo também correcto mas menos popular no Ocidente. Quanto à qualidade: boas, mas sem o refinamento das de Francisco Lopes, devo dizer. Excelente negócio, ainda assim: dificilmente se come tão bem em Paris por 9 euros.

 

Pho14

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No género sopa asiática, o Pho 14, em Tolbiac, no 13e arrondissement, é imperdível. Come-se pho, naturalmente, um caldo de carne translúcido cheio de ervas frescas (incrível o manjericão tailandês) e noodles. O meu preferido é feito com tendões de vaca e tripas. Dois problemas: a espera e o serviço stressante.

 

Agapes

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Talvez a refeição que mais me satisfez durante esta estadia aconteceu neste pequeno bistrot de bairro, no 5e arrondissement, perto da Boulevard Saint-Marcel. Saí de casa sem destino, passei por ele, vi que estava praticamente cheio mas tinha uma mesinha vaga a um canto*. Num quadro, cá fora, anunciavam-se coisas muito francesas como o agneau d’Auverne.

A abrir, escolhi as gambas com alcachofra e uma mousse de curgete com laranja: mar e campo, excelente. Depois, onglet de boeuf com cogumelos. A carne saborosíssima, assada à parte; por cima cantarelos e chalotas em molho de manteiga; em volta um maravilhoso jus de carne. À parte, cestinho de batatas novas com pele, demasiado cozinhadas, engelhadas e farinhentas.

A terminar, um Crème Réplisse: fresco, cheio de anis e menta, bolacha e bola de gelado de chocolate. Embebeu a refeição água do cano e um excelente copo de tinto de Saint Chinian, L’excellence de Saint-Laurent, 2012, (5,80€). Conta total: 42,80 euros. Très bien.

 

Le Camion qui Fume

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hype deste camião de hambúrgueres, gerido por um casal norte-americano, teve o seu auge no ano passado, mas a loucura (que incluiu a publicação de um livro de luxo) não esmoreceu em 2014. Daí termos apanhado o Métro de propósito para os ir provar até à zona da Bibliotheque François Mitterrand (a dar voltas na tumba, com certeza), onde estavam estacionados.

Uma vez lá, impaciente, a minha filha perguntava: “Onde está o camião, pai, onde está?” E eu respondia: “Está onde vires uma fila muito comprida”. Não me enganei. Ei-la, longa como a do Louvre, uma hora de espera. Resistimos estoicamente, mas no fim foi a desilusão e a fúria. Todos de acordo em que o hambúrguer era mau e caro (10€, com batatas fritas ou uma salada coleslaw incomestível). O pão esfarelado, a carne banal, o queijo Cheddar por derreter, as batatas sem graça.

Muitos pontos abaixo, por exemplo, do hambúrguer do To Burguer or not To Burguer, na nossa Praça de Londres, que comera na semana anterior.

Mesmo ao lado estava também o camião do The Sunken Ship, muito falado recentemente mas sem um décimo da clientela. Peixe frito com batatas fritas: polme gorduroso, batatas sem graça e, curiosamente, iguais ou muito parecidas às do vizinho.

Enquanto isso, no meio da praça pessoas dançavam espontaneamente, ao som de lindy hop, não particularmente bem. Antes tango.

 

* 10 dicas d’OHQCT para escolher um restaurante olhando para ele:

1. Só entre num restaurante vazio caso seja cedo (12.30, 19.30) e saiba que vai encher. Nesse caso, este é o melhor cenário possível para comer bem porque apanha o chef e os empregados ainda frescos.

2. Sem informação prévia, escolha um restaurante cheio só com uma mesinha vaga para si.

3. Evite restaurantes que têm um empregado à porta com uma menu na mão.

4. Atenção aos restaurantes com menus que usam uma fonte tipo Edwardian Script. Em 67 por cento dos casos, o preço é alto para o que come.

5. Só almoce num sítio com fotos dos pratos expostos se estiver numa casa de kebabs.

6. Evite restaurantes com louça suja em mesas já desocupadas.

7. Não almoce num sítio com cheiro a tabaco e álcool ressequido. Muito provavelmente funcionou como bar à noite. Muito provavelmente os funcionários estão ressacados.

8. Não se arrisque num restaurante alcatifado.

9. Não se arrisque num restaurante com molduras douradas.

10. Não se arrisque num restaurante com copos de vinho coloridos.

 

 

 

I LOVE (a little less)* PARIS

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Os parisienses costumavam ser uma boa cambada libertina, petulante e monoglota, para quem nenhuma cidade se comparava à deles. Tinham boas razões para achar isso. Da gastronomia à arquitectura, passando pelo ensino, pelas 35 horas de trabalho semanais (parte das quais passadas a copular nas toilletes), havia muita coisa admirável e original na capital da Gália.

Hoje, estão cada vez mais iguais aos outros. E isso significa, em grande medida, mais iguais aos EUA, um país extraordinário que não precisa de réplicas.

Já tinha ficado com esta impressão noutras visitas a Paris, sobretudo nas áreas da música e do prêt-à-porter  (rapaziada com boné de pala NY por todo o lado) mas este ano a coisa tornou-se evidente também na gastronomia.

O fenómeno é tanto mais surpreendente quanto os discípulos de Escoffier e Bocuse tinham ultrapassado, com brio, um desafio muito complicado no final dos anos 1990. Numa altura em que andava toda a gente embeiçada pela cozinha molecular de Adrià, em França não se via uma esfera do que quer que fosse.

As novas elites culturais e artísticas viraram-se antes para o outro lado do Atlântico, sobretudo para Nova Iorque, espécie de farol planetário da sofisticação, inversão que deixou muitos soixant-huitards com azia. Depois de décadas a serem um modelo para os nova-iorquinos, os jovens parisienses passavam a meros seguidores.

Na restauração de massas isso é notório nas hamburguerias (Le Camion qui Fume, Barbershop), cheias de hipsters que preferem Brooklyn a Saint-Germain-de-Prés. Mas na cozinha de autor acontece algo de semelhante. Boa parte dos chefs de maior sucesso ou vieram dos EUA ou estiveram a estagiar lá (restaurantes Spring, Frenchie) ou têm como referência colegas anglo-saxónicos (David Chang é deus).

E se, em certa medida, a tendência é ditada por bloggers norte-americanos residentes em Paris, como David Lebovitz, a imprensa francesa mais francesa, Nouvel Observateur incluído, também contribui para a estrangeirice.

Dito isto, é verdade que algumas idiossincrasias se mantêm. Paris ainda é o sítio do mundo com mais mulheres bonitas por depilar (a revista Les InRockuptibles, aliás, publicou na semana passada a sua edição anual sobre sexo e a imagem da capa revela uma pentelheira à antiga).

Também continua sem haver outra cidade onde se veja tanta gente (adulta) a dar baisers amoureux (linguados) no Métro. De resto, como sempre, os edifícios estão impecáveis, os parques são limpos e abundantes, o Sena não saiu do lugar e os indígenas permanecem horas nas esplanadas apenas a admirar o seu próprio vinho, as suas próprias ruas e o seu próprio povo.

Há, portanto, muita coisa boa, e seria em qualquer caso errado deduzir que se passou a comer mal na cidade (em breve, OHQCT publicará o seu roteiro). O que falta é uma vibração nova, original mas tipicamente francesa. Mais Pári e menos Péuris.
*Este artigo contém 16 parênteses em 2831 caracteres, pelo que pode bem estar perante um recorde mundial. 

 

HÁ UM NOVO RESTAURANTE NA CIDADE E DOS BONS: TIAN YI JIAO

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O muito conhecedor Miudezas foi o primeiro a dar conta dele. Depois, um amigo convidou-me para lá irmos almoçar, mas estava fechado. Abre das 16h00 à 01h00, serve lanches, jantares e ceias.

Aqui a famelga já lá tinha passado à porta, com vontade de entrar. Fica atrás do centro comercial Portugália, numa paralela à Almirante Reis. Este fim de semana não nos escapou.

O ambiente é de tasca, por vezes de câmara de gás, que se fuma e muito e não há exaustor; gritaria festiva, quatro grandes mesas redondas, a sentar mais de uma dezena de pessoas cada, outra de quatro lugares e outra de dois, mesmo em cima da porta (aberta).

No dia em que lá fomos, só chineses à excepção do crítico de jazz do Expresso, Raul Vaz Bernardo. Tem tudo a ver.

Dito isto, a comida. Do caraças!

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A abrir, umas tâmaras assadas (na carta aparece como “Coração mole”), espectaculares, a pele crocante, muito aromáticas, nunca pensei. Ao mesmo tempo chegou inhame frito,  o molho de carne e cebola.

Um dos pratos mais “populares”, segundo a muito simpática empregada, é a massa com carne picada: excelentes os noodles, o molho saborosíssimo, avinagrado, ovo mexido e cebolinho a cobrir a travessa (dá para quatro pessoas). Uma javardice mesmo boa.

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Eu aventurei-me no frango picante. A ave frita em bocados pequenos, coentros, amendoins e malaguetas (bueda malaguetas, malaguetas como vocês nunca viram, dezenas delas. Se queimava? Queimava como o Caramulo!). Excelente prato, a ligação coentros/malaguetas a funcionar como joão pinto e rui costa, na perfeição. Pena o óleo da fritura queimado.

O Chico e a Maria ainda provaram as línguas de pato, oferecidas por um amigo chinês que lá estava, doido pela iguaria.

Ficaram dezenas de coisas por experimentar, todas muito auspiciosas e desconhecidas. Como diria o Raul, até jazz.

Rua António Pedro, 95, Lisboa (nas traseiras do Centro Comercial Portugália – R.I.P.). Não aceita cartões. Aberto das 16h00 à 01h00.

KANYE WEST LEVA UMA TAREIA POR CAUSA DOS CROISSANTS

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Kanye West é um artista do hip hop muito considerado nos meios eruditos. Infelizmente, tem uma noção de si próprio ligeiramente exagerada.

Um alegado Bernard Aydelotte, de uma alegada Associação de Padeiros Franceses, perdoa-lhe o narcisismo e até o facto de ter dado o nome “Nord” à filha. Mas quando o norte-americano escreve sobre croissants, na música I Am God, ele fica muito irritado.

An Open Letter to Kanye West from the Association of French Bakers

Regarding Croissants in “I am a God”

Association of French Bakers
900 Rue Vielle du Temple
Paris FRANCE

To Monsieur Kanye West:

Congratulations on the birth of your daughter, Nord! This is a truly auspicious time for you — and so it is with great sadness that we must lodge a formal complaint against the song “I am a God” from your new album Yeezus.

Our organization represents bakers across France, many of whom have taken great offense at this particular rhyming couplet:

In a French-ass restaurant
Hurry up with my damn croissants

Assuming you, as a man of means, dine exclusively at high-end restaurants and boulangeries during your voyages to Paris, it could not be possible that the delay of your “damn” croissants originated from slow service. And certainly, you are not a man to be satisfied with pre-made croissants from the baked goods case reheated and tossed out on a small platter. No — you had demanded your croissants freshly baked, to be delivered to your table straight out of the oven piping hot.

And it was with great joy you ordered croissants — not crêpes or brioches — because only croissants can proudly claim that exquisite combination of flaky crust and a succulent center. The croissant is dignified — not vulgar like a piece of toast, simply popped into a mechanical device to be browned. No — the croissant is born of tender care and craftsmanship. Bakers must carefully layer the dough, paint on perfect proportions of butter, and then roll and fold this trembling croissant embryo with the precision of a Japanese origami master.

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This process, as you can understand, takes much time. And we implore the patience of all those who order croissants. You may be familiar with the famous French expression, “A great croissant is worth waiting a lifetime for.” We know you are a busy man, M. West, but we believe that your patience for croissants will always be rewarded.

We could easily let this water pass under the bridge, as they say, but we take your lyrics very seriously. From the other lines in the song, we have come to understand that you may in fact be a “God.” Yet if this were the case — and we, of course, take you at your word — we wonder why you do not more frequently employ your omnipotence to change time and space to better suit your own personal whims. For us mere mortals, we must wait the time required for the croissant to come to perfect fruition, but as a deity, you can surely alter the bread’s molecular structure faster than the speed of light, no? And with your omniscience, perhaps you have something to teach us about the perfect croissant. We await your guidance and insights.

We appreciate your continued patronage of French culture. (Your frequent references to menage perhaps speak an interest in the structure of the French household?) We hope from the deepest recesses of our hearts, however, that in the future you give croissants the time they need to fully mature before you partake. With that, we say, adieu. And our member Louis Malpass from Le Havre wants you to know that he loves “Black Skinhead.”

Salutations cordiales

Bernard Aydelotte
Association of French Bakers

PS: Tendo a achar que isto é uma fraude deste blogger, que é obviamente uma pessoa com disponibilidade e amor aos croissants.