O misterioso caminho até aos barfi

A comida pode ser um caminho.

Um dos caminhos mais fascinantes para a comida é o que nos leva à cantina do templo hindu, ali onde Telheiras encontra o Lumiar. É um dos meus restaurantes preferidos para levar amigos, também por causa do caminho.

Quando me aproximo do templo mastodôntico e conduzo para a cave, sinto sempre um certo desconforto no pendura, “para onde é que me levas?”, “os hindus são pacíficos, não são?”, “diz à minha gata que a adoro”. O parque de estacionamento é um sítio escuro, frio e vazio, cheio de colunas, onde facilmente caberia a frota da Rede Expressos ou uma coreografia de Bollywood com criminosos de bigode traficando caril ou as cenas que os indianos traficam.  

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Do carro ao restaurante, todavia, são 15 segundos e lá dentro só acontecem coisas boas. As senhoras que servem são simpáticas, a comida é da vegetariana que não se nota e servida num buffet curto mas completo, onde entra sempre uma sopa (a de lentilhas, com massala, alimonada e picante, é extraordinária), pão feito na hora, arroz, guisados de legumes e leguminosas, tudo apurado e aromático como um mercado de Gujarat.

Sucede que tão interessante quanto o restaurante é a fábrica de doçaria e aperitivos que funciona na cozinha. Quase toda a gente acaba de comer e acorre ao balcão para se abastecer e levar para casa. Há vários snacks salgados, tudo frito, a maioria feitos com farinha de grão e especiarias. Da última vez trouxe uma variedade com farinha de lentilhas, crocante e picante, que se tornou a favorita cá de casa.

A grande novidade para mim, todavia, foram os doces. Os mais interessantes são feitos com farinhas de frutos secos, manteiga e açúcar – à semelhança dos que se podem encontrar nos restaurantes e cafés bengalis da Rua do Benformoso, ao Martim Moniz. Conhecidos como barfi ou burfi são uma instituição culinária na Índia e também um filme de sucesso.

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Há mais do que uma variedade (pistáchio é uma delas) mas eu experimentei o barfi de caju e fiquei viciado. Desfazem-se na boca lentamente, sem nunca o açúcar se impor. O sabor do caju não é imediato, antes vai-se revelando e acaba por encher a boca e pedir um chá e uma manta. Cada saquinho custa quatro euros, preço alto mas justo.

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Façam-se ao caminho.

Alameda Mahatma Gandhi (Telheiras, Lisboa). 21 752 44 59

O ÚLTIMO HAMBURGUER EM PARIS

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Fica aqui o roteiro de alguns dos sítios por onde passei em Paris, todos citados na imprensa como restaurantes do momento ou clássicos da cidade. Nem todos extraordinários.

Le Servan

Aberto em Abril, é talvez o restaurante com mais onda (e imprensa) do momento. David Chang, o chef estrela norte-americano, esteve lá há dias. Situado no sofisticado bairro de Marais (muito Lower East Side) tem à frente duas irmãs, uma delas com experiência na alta cozinha francesa (L’Asperge, de Alain Passard, e L’Astrance, de Pascal Barbot).

Sabendo isto, tentei a minha sorte com uma reserva para o almoço. Comecei a ligar para lá mal aterrei em Orly, mas fui remetido para o atendedor de chamadas. Só consegui chegar à fala quatro dias depois: havia lugar, sim senhora, e para esse mesmo dia.

Chegado ao local, identifiquei de imediato uma das simpáticas donas. O espaço pequeno, vinte e poucos lugares, mobiliário em segunda mão (onde já vi isto?), colunas sem reboco, ambiente sem dress code, égalité, égalité! À minha frente, dois homens das obras vestidos à homens das obras, camisolas cavas e calças pintalgadas, a serem atendidos como se fossem o Bono Vox. Vive la France!

Não havia escolha à carta, só menu de almoço. Pedi as sardinhas cruas para entrada: duas delas, filetadas, sem espinhas; em volta uma salada de coentros, flor de manjericão, tomates cereja saborosíssimos e groselhas. Fresco, aromático, Portugal e Vietname no mesmo prato.

Vieram depois dois blocos de entremeada de leitão tenros, a pele estaladiça, espicaçados por um jus de carne tipicamente francês, bem feito. A acompanhar, milho: em grão, com chalotas e molho de manteiga e limão, e em maçarocas micro, assadas.

Para sobremesa, mousse de queijo fresco com frutos vermelhos e destroços de suspiro. Combinação clássica e vencedora.

Bebeu-se uma cerveja artesanal de Paris e um copo de vinho tinto sobre o qual não apontei a referência, mas que me pareceu fracote. Serviço atencioso e sorridente.

A conta uma boa surpresa: 36 euros. Em todo o caso, pergunta-se: tanta excitação, porquê?

 

Higuma

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Andava já há algum tempo para visitar o restaurante onde Francisco Lopes, do extinto Assuka, trabalhou e aprendeu a fazer as suas sopas Ramen, há mais de 20 anos. O Higuma é, ainda hoje, um dos locais de referência em Paris para comer esta sopa japonesa (de origem chinesa). O seu sucesso foi de tal ordem que a empresa abriu outros restaurantes na cidade.

Fomos ao da Boulevard des Italiens, junto à Opera, por questões práticas. A carta é praticamente igual à da do Assuka, inclusive as denominações das sopas como “Lamen” (e não “Ramen”), termo também correcto mas menos popular no Ocidente. Quanto à qualidade: boas, mas sem o refinamento das de Francisco Lopes, devo dizer. Excelente negócio, ainda assim: dificilmente se come tão bem em Paris por 9 euros.

 

Pho14

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No género sopa asiática, o Pho 14, em Tolbiac, no 13e arrondissement, é imperdível. Come-se pho, naturalmente, um caldo de carne translúcido cheio de ervas frescas (incrível o manjericão tailandês) e noodles. O meu preferido é feito com tendões de vaca e tripas. Dois problemas: a espera e o serviço stressante.

 

Agapes

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Talvez a refeição que mais me satisfez durante esta estadia aconteceu neste pequeno bistrot de bairro, no 5e arrondissement, perto da Boulevard Saint-Marcel. Saí de casa sem destino, passei por ele, vi que estava praticamente cheio mas tinha uma mesinha vaga a um canto*. Num quadro, cá fora, anunciavam-se coisas muito francesas como o agneau d’Auverne.

A abrir, escolhi as gambas com alcachofra e uma mousse de curgete com laranja: mar e campo, excelente. Depois, onglet de boeuf com cogumelos. A carne saborosíssima, assada à parte; por cima cantarelos e chalotas em molho de manteiga; em volta um maravilhoso jus de carne. À parte, cestinho de batatas novas com pele, demasiado cozinhadas, engelhadas e farinhentas.

A terminar, um Crème Réplisse: fresco, cheio de anis e menta, bolacha e bola de gelado de chocolate. Embebeu a refeição água do cano e um excelente copo de tinto de Saint Chinian, L’excellence de Saint-Laurent, 2012, (5,80€). Conta total: 42,80 euros. Très bien.

 

Le Camion qui Fume

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hype deste camião de hambúrgueres, gerido por um casal norte-americano, teve o seu auge no ano passado, mas a loucura (que incluiu a publicação de um livro de luxo) não esmoreceu em 2014. Daí termos apanhado o Métro de propósito para os ir provar até à zona da Bibliotheque François Mitterrand (a dar voltas na tumba, com certeza), onde estavam estacionados.

Uma vez lá, impaciente, a minha filha perguntava: “Onde está o camião, pai, onde está?” E eu respondia: “Está onde vires uma fila muito comprida”. Não me enganei. Ei-la, longa como a do Louvre, uma hora de espera. Resistimos estoicamente, mas no fim foi a desilusão e a fúria. Todos de acordo em que o hambúrguer era mau e caro (10€, com batatas fritas ou uma salada coleslaw incomestível). O pão esfarelado, a carne banal, o queijo Cheddar por derreter, as batatas sem graça.

Muitos pontos abaixo, por exemplo, do hambúrguer do To Burguer or not To Burguer, na nossa Praça de Londres, que comera na semana anterior.

Mesmo ao lado estava também o camião do The Sunken Ship, muito falado recentemente mas sem um décimo da clientela. Peixe frito com batatas fritas: polme gorduroso, batatas sem graça e, curiosamente, iguais ou muito parecidas às do vizinho.

Enquanto isso, no meio da praça pessoas dançavam espontaneamente, ao som de lindy hop, não particularmente bem. Antes tango.

 

* 10 dicas d’OHQCT para escolher um restaurante olhando para ele:

1. Só entre num restaurante vazio caso seja cedo (12.30, 19.30) e saiba que vai encher. Nesse caso, este é o melhor cenário possível para comer bem porque apanha o chef e os empregados ainda frescos.

2. Sem informação prévia, escolha um restaurante cheio só com uma mesinha vaga para si.

3. Evite restaurantes que têm um empregado à porta com uma menu na mão.

4. Atenção aos restaurantes com menus que usam uma fonte tipo Edwardian Script. Em 67 por cento dos casos, o preço é alto para o que come.

5. Só almoce num sítio com fotos dos pratos expostos se estiver numa casa de kebabs.

6. Evite restaurantes com louça suja em mesas já desocupadas.

7. Não almoce num sítio com cheiro a tabaco e álcool ressequido. Muito provavelmente funcionou como bar à noite. Muito provavelmente os funcionários estão ressacados.

8. Não se arrisque num restaurante alcatifado.

9. Não se arrisque num restaurante com molduras douradas.

10. Não se arrisque num restaurante com copos de vinho coloridos.

 

 

 

I LOVE (a little less)* PARIS

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Os parisienses costumavam ser uma boa cambada libertina, petulante e monoglota, para quem nenhuma cidade se comparava à deles. Tinham boas razões para achar isso. Da gastronomia à arquitectura, passando pelo ensino, pelas 35 horas de trabalho semanais (parte das quais passadas a copular nas toilletes), havia muita coisa admirável e original na capital da Gália.

Hoje, estão cada vez mais iguais aos outros. E isso significa, em grande medida, mais iguais aos EUA, um país extraordinário que não precisa de réplicas.

Já tinha ficado com esta impressão noutras visitas a Paris, sobretudo nas áreas da música e do prêt-à-porter  (rapaziada com boné de pala NY por todo o lado) mas este ano a coisa tornou-se evidente também na gastronomia.

O fenómeno é tanto mais surpreendente quanto os discípulos de Escoffier e Bocuse tinham ultrapassado, com brio, um desafio muito complicado no final dos anos 1990. Numa altura em que andava toda a gente embeiçada pela cozinha molecular de Adrià, em França não se via uma esfera do que quer que fosse.

As novas elites culturais e artísticas viraram-se antes para o outro lado do Atlântico, sobretudo para Nova Iorque, espécie de farol planetário da sofisticação, inversão que deixou muitos soixant-huitards com azia. Depois de décadas a serem um modelo para os nova-iorquinos, os jovens parisienses passavam a meros seguidores.

Na restauração de massas isso é notório nas hamburguerias (Le Camion qui Fume, Barbershop), cheias de hipsters que preferem Brooklyn a Saint-Germain-de-Prés. Mas na cozinha de autor acontece algo de semelhante. Boa parte dos chefs de maior sucesso ou vieram dos EUA ou estiveram a estagiar lá (restaurantes Spring, Frenchie) ou têm como referência colegas anglo-saxónicos (David Chang é deus).

E se, em certa medida, a tendência é ditada por bloggers norte-americanos residentes em Paris, como David Lebovitz, a imprensa francesa mais francesa, Nouvel Observateur incluído, também contribui para a estrangeirice.

Dito isto, é verdade que algumas idiossincrasias se mantêm. Paris ainda é o sítio do mundo com mais mulheres bonitas por depilar (a revista Les InRockuptibles, aliás, publicou na semana passada a sua edição anual sobre sexo e a imagem da capa revela uma pentelheira à antiga).

Também continua sem haver outra cidade onde se veja tanta gente (adulta) a dar baisers amoureux (linguados) no Métro. De resto, como sempre, os edifícios estão impecáveis, os parques são limpos e abundantes, o Sena não saiu do lugar e os indígenas permanecem horas nas esplanadas apenas a admirar o seu próprio vinho, as suas próprias ruas e o seu próprio povo.

Há, portanto, muita coisa boa, e seria em qualquer caso errado deduzir que se passou a comer mal na cidade (em breve, OHQCT publicará o seu roteiro). O que falta é uma vibração nova, original mas tipicamente francesa. Mais Pári e menos Péuris.
*Este artigo contém 16 parênteses em 2831 caracteres, pelo que pode bem estar perante um recorde mundial. 

 

HÁ UM NOVO RESTAURANTE NA CIDADE E DOS BONS: TIAN YI JIAO

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O muito conhecedor Miudezas foi o primeiro a dar conta dele. Depois, um amigo convidou-me para lá irmos almoçar, mas estava fechado. Abre das 16h00 à 01h00, serve lanches, jantares e ceias.

Aqui a famelga já lá tinha passado à porta, com vontade de entrar. Fica atrás do centro comercial Portugália, numa paralela à Almirante Reis. Este fim de semana não nos escapou.

O ambiente é de tasca, por vezes de câmara de gás, que se fuma e muito e não há exaustor; gritaria festiva, quatro grandes mesas redondas, a sentar mais de uma dezena de pessoas cada, outra de quatro lugares e outra de dois, mesmo em cima da porta (aberta).

No dia em que lá fomos, só chineses à excepção do crítico de jazz do Expresso, Raul Vaz Bernardo. Tem tudo a ver.

Dito isto, a comida. Do caraças!

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A abrir, umas tâmaras assadas (na carta aparece como “Coração mole”), espectaculares, a pele crocante, muito aromáticas, nunca pensei. Ao mesmo tempo chegou inhame frito,  o molho de carne e cebola.

Um dos pratos mais “populares”, segundo a muito simpática empregada, é a massa com carne picada: excelentes os noodles, o molho saborosíssimo, avinagrado, ovo mexido e cebolinho a cobrir a travessa (dá para quatro pessoas). Uma javardice mesmo boa.

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Eu aventurei-me no frango picante. A ave frita em bocados pequenos, coentros, amendoins e malaguetas (bueda malaguetas, malaguetas como vocês nunca viram, dezenas delas. Se queimava? Queimava como o Caramulo!). Excelente prato, a ligação coentros/malaguetas a funcionar como joão pinto e rui costa, na perfeição. Pena o óleo da fritura queimado.

O Chico e a Maria ainda provaram as línguas de pato, oferecidas por um amigo chinês que lá estava, doido pela iguaria.

Ficaram dezenas de coisas por experimentar, todas muito auspiciosas e desconhecidas. Como diria o Raul, até jazz.

Rua António Pedro, 95, Lisboa (nas traseiras do Centro Comercial Portugália – R.I.P.). Não aceita cartões. Aberto das 16h00 à 01h00.

KANYE WEST LEVA UMA TAREIA POR CAUSA DOS CROISSANTS

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Kanye West é um artista do hip hop muito considerado nos meios eruditos. Infelizmente, tem uma noção de si próprio ligeiramente exagerada.

Um alegado Bernard Aydelotte, de uma alegada Associação de Padeiros Franceses, perdoa-lhe o narcisismo e até o facto de ter dado o nome “Nord” à filha. Mas quando o norte-americano escreve sobre croissants, na música I Am God, ele fica muito irritado.

An Open Letter to Kanye West from the Association of French Bakers

Regarding Croissants in “I am a God”

Association of French Bakers
900 Rue Vielle du Temple
Paris FRANCE

To Monsieur Kanye West:

Congratulations on the birth of your daughter, Nord! This is a truly auspicious time for you — and so it is with great sadness that we must lodge a formal complaint against the song “I am a God” from your new album Yeezus.

Our organization represents bakers across France, many of whom have taken great offense at this particular rhyming couplet:

In a French-ass restaurant
Hurry up with my damn croissants

Assuming you, as a man of means, dine exclusively at high-end restaurants and boulangeries during your voyages to Paris, it could not be possible that the delay of your “damn” croissants originated from slow service. And certainly, you are not a man to be satisfied with pre-made croissants from the baked goods case reheated and tossed out on a small platter. No — you had demanded your croissants freshly baked, to be delivered to your table straight out of the oven piping hot.

And it was with great joy you ordered croissants — not crêpes or brioches — because only croissants can proudly claim that exquisite combination of flaky crust and a succulent center. The croissant is dignified — not vulgar like a piece of toast, simply popped into a mechanical device to be browned. No — the croissant is born of tender care and craftsmanship. Bakers must carefully layer the dough, paint on perfect proportions of butter, and then roll and fold this trembling croissant embryo with the precision of a Japanese origami master.

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This process, as you can understand, takes much time. And we implore the patience of all those who order croissants. You may be familiar with the famous French expression, “A great croissant is worth waiting a lifetime for.” We know you are a busy man, M. West, but we believe that your patience for croissants will always be rewarded.

We could easily let this water pass under the bridge, as they say, but we take your lyrics very seriously. From the other lines in the song, we have come to understand that you may in fact be a “God.” Yet if this were the case — and we, of course, take you at your word — we wonder why you do not more frequently employ your omnipotence to change time and space to better suit your own personal whims. For us mere mortals, we must wait the time required for the croissant to come to perfect fruition, but as a deity, you can surely alter the bread’s molecular structure faster than the speed of light, no? And with your omniscience, perhaps you have something to teach us about the perfect croissant. We await your guidance and insights.

We appreciate your continued patronage of French culture. (Your frequent references to menage perhaps speak an interest in the structure of the French household?) We hope from the deepest recesses of our hearts, however, that in the future you give croissants the time they need to fully mature before you partake. With that, we say, adieu. And our member Louis Malpass from Le Havre wants you to know that he loves “Black Skinhead.”

Salutations cordiales

Bernard Aydelotte
Association of French Bakers

PS: Tendo a achar que isto é uma fraude deste blogger, que é obviamente uma pessoa com disponibilidade e amor aos croissants.

CAIS DA PEDRA. A HAMBURGUERIA-PASSARELA.

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“Não há no mundo um sítio onde as pessoas se produzam tanto para ir comer a merda de um hambúrguer”.

Os hambúrgueres estão na moda e são um fenómeno incomparável. Em Nova Iorque, por exemplo, a paixão é antiga, mas recria-se constantemente. Agora, inventaram um hambúrguer que em vez do pão tem noodles (esparguete chinês) compactados, a entalar a carne. Um sucesso, filas ridículas.

Em Paris, berço da alta gastronomia, o grande êxito chama-se Le Camion qui Fume. Hambúrgueres feitos numa camioneta. A mentora do negócio, norte-americana, publicou mesmo um livro. O luxo da edição compara com as obras impressas de Ducasse, embora o génio francês não tenha direito ao escaparate da Colette, a exclusiva e muito hipster boutique da Rue Saint-Honoré, e o receituário do Camion lá esteja, ao lado de ensaios fotográficos de autores vanguardistas coreanos.

A origem do hambúrguer é Hamburgo, a cidade portuária alemã. Mas foram os norte-americanos, influenciados por imigrantes germânicos, quem popularizou o pacote actual, um condensado de várias coisas boas e viciantes: carne, pickles, molhos (sobretudo maionese e ketchup), pão e batatas fritas. À parte vegetarianos ortodoxos e recém-nascidos, as pessoas normalmente gostam, frequentemente adoram.

Tudo isto é do conhecimento de chefs e de empresários, portugueses incluídos. Daí que, hoje, tenhamos muito mais hamburguerias do que alguma vez tivemos, e nem todas sejam McDonald e algumas até se auto-intitulem gourmet.

Em Lisboa, o projecto mais ambicioso parece ser o de Henrique Sá Pessoa, apresentador do programa de televisão Ingrediente Secreto e chef do Alma, onde pratica cozinha de autor. O seu Cais da Pedra, na doca de Santa Apolónia, ao lado da Bica do Sapato e da pizzaria Casanova (vénia), é um espaço vasto e muito bonito, com uma vista magnifica sobre o rio Tejo.

Ao entrarmos damos com a sala em open space, o bar a servir de recepção. Amplos espelhos de um lado, do outro a cozinha, aberta, estendendo-se ao longo da parede até à esplanada. Sóbrio, limpo, luminoso, podíamos estar na Europa.

A inauguração, em Abril, mereceu larga cobertura mediática, das publicações especializadas ao cor de rosa – e isso nota-se no tipo de freguesia. Mesmo no mês de Agosto, quando a maior parte do jet set já rumou a sul e anda a inalar cocaína na marina de Vilamoura, ainda há um jetsetezinho que mete os seus melhores decotes e as suas melhores camisas e permanece em Lisboa a enfartar-se de hambúrgueres no Cais da Pedra.

Porquê? Não sei.

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Numa visita recente, o pão não tinha graça e estava seco. A cebola apresentou-se cozida e mole. O cheddar do cheeseburguer seria melhor não estar lá; noutro hambúrguer, o gorgonzola também surgiu mal. E depois a carne: insípida, desfalecida, partida, e provavelmente sem lume suficiente para se ter produzido aquela crosta caramelizada essencial, indicativo de que os aminoácidos e os açucares se transformaram em aromas e sabores complexos (reacção de Maillard).

No fundo, um pedaço monótono de proteína, sem pimenta, sem ácido, sem sabor e sem interesse.

Nos acompanhamentos, as batatas fritas boas. Já a batata doce revelou uma cozedura excessiva. Boas também as azeitonas e o pão, tipo Mafra.

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Sá Pessoa é um bom chef. Quem me dera poder alimentar-me todas as semanas da sua cozinha. E também parece ser boa pessoa. Mas os hambúrgueres servidos no Cais da Pedra são fraquinhos fraquinhos. Mais: também são carinhos carinhos: por menos de 15 a 20 euros não se faz a festa. Com metade, comi há uns dias um hambúrguer como deve de ser no Maratona, restaurante e cafetaria nas Caldas da Rainha, sobre o qual se escreverá aqui brevemente, melhor em tudo.

Em conclusão, já vimos isto. Alguém famoso domina um sector, conhece um sector; depois vê uma nova tendência lá fora, boa oportunidade de negócio, e vai atrás dela. A nova tendência não é bem a vocação da pessoa, mas até nem parece difícil e o terreno está livre. A celebridade do nome, mais a visão de mercado, mais a decoração farão o sucesso.

No caso do Cais da Pedra, no dia em que lá fui, a clientela era bastante, ainda para mais com bom aspecto. Como a Sílvia comentou, não haverá em todo o mundo um sítio onde “as pessoas se produzam tanto para ir comer a merda de um hambúrguer”.

Sushi. O Enxaréu é o novo Atum

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Sento-me ao balcão do Assuka, olho para o mostrador frigorífico de peixe cru e vejo uns filetes esbranquiçados. Não os reconheço, mas Francisco Lopes, chef e proprietário, esclarece: “´É enxaréu, vindo dos Açores”.

De início, por estar desnudo e por causa do nome, havia-o confundido com o enxarroco ou xarroco, o peixe mais feio do mundo. Não tem nada a ver.

Nas mesas do Japão, há muito que a espécie é um luxo, mas só recentemente foi introduzida em Portugal, como sushi. No restaurante japonês da Rua S. Sebastião da Pedreira, em Lisboa, existe há um mês.

Peço dois sushis nigiris. Bolinha de arroz irrepreensível, os grãos coesos e definidos, e o enxaréu por cima. Lascado, revela logo aromas a mar (quase o aspirei pela narina). Na boca, de consistência selvagem inequívoca (que também os há de aquacultura, no Japão), delicado, untuoso, a lembrar o toro (barriga de atum, gorda que nem um pneu do Alberto João Jardim), embora mais musculado.

Bom mas bom, a ser comido de olhos fechados.

Alguma zoologia. Da família dos Carangídeos, como o seu irmão lírio, o Pseudocaranx dentex do Assuka alimenta-se de plâncton dos fundos (fundos açoreanos, dos bons) e de pequenos crustáceos.

Segundo a muito estimável base de dados www.fishbase.org, espécie de Wikipedia ictiológica, o maior exemplar de enxaréu registado alcançou os 120 cm, enquanto a média é de 40 cm. O idoso mais idoso tinha 49 anos de mar, e isto parece-me uma coisa bonita.

Os Açores e a Madeira não são os seus únicos habitats, mas são com certeza dos melhores, dada a qualidade das águas.

Há ainda outra vantagem em comer enxaréu. A pessoa – sobretudo a pessoa ecológica, onde tento incluir-me – dorme bem. A espécie não está na lista vermelha, em risco de extinção.

Pelo menos até ver.

É que sobre a sua sustentabilidade sabe-se pouco. O insuspeito Casson Trenor, activista do Greenpeace, um louco que se põe no mar à frente de navios predadores em marcha e fala nas conferências TED, admite esse desconhecimento. No livro “Sustainable Sushi: A Guide to Saving the Oceans One Bite at a Time” reconhece o seu alto valor culinário, sobretudo no Japão, mas nada adianta no que respeita a capturas e população.

Podem ver como ele fala bem aqui:

Em Portugal, aparentemente, a pressão sobre o enxaréu é reduzida. Poucos o comem, talvez porque, cozinhada, a carne seca facilmente.

Quem gosta deles são os pescadores desportivos. Uma das suas características é a resiliência, e homens com espingardas gostam de animais resilientes. No Google Images abundam aquelas fotografias de mergulhadores exibindo a caça, sorridentes e orgulhosos.

[Segundo um estudo de Jonathan Mildow, investigador e psicanalista da University of Pennsylvania, autor do célebre artigo What the Size of Your Car Says About the Size of Your Sex, estes mergulhadores têm quase sempre genitais de tamanho inversamente proporcional ao dos peixes com que posam].

O que é evidente é que o enxaréu cru é bom que se farta. E tudo o que é bom que se farta corre um de dois riscos: ou desaparece ou torna-se muito caro. Como aconteceu com o atum rabilho.

Este post mereceu a seguinte adenda, no dia 11 de Agosto.

“Esqueçam o enxaréu. Descobri entretanto que o enxaréu causa cancro do polegar. Comam antes salmão, que tem muito Ómega 3 e vai fazer-vos ficar espertos.”