Aforismos e Cenas

A versão do famoso texto em que o arquitecto Saraiva decretou o fim da cozinha tradicional portuguesa.

VERSÃO EDITADA E COMENTADA

A cozinha portuguesa está condenada

Os donos de restaurantes são permeáveis à moda e os cozinheiros já não querem fazer os pratos simples da culinária tradicional. Querem fazer coisas novas. Que ciência há num bacalhau com batatas ou numas iscas à portuguesa? [MUITA CIÊNCIA]

A cozinha portuguesa está condenada

Se o leitor perguntar a uma criança qual a sua comida preferida, ela responder-lhe-á muito provavelmente: [BITOQUE],«hamburger». Ou então: «pizza». Ou, se a criança pertencer a uma família mais sofisticada, «sushi». 

Nenhuma criança colocará entre as suas preferências um prato tradicional português. Mesmo o bife com batatas fritas, que era sempre o que os meninos [E AS MENINAS, PEDIAM O QUÊ? SALADA DE ALFACE?] pediam às mães para lhes fazerem em casa ou escolhiam nos restaurantes, já não lhes vem à cabeça com a mesma espontaneidade. [UM GAJO TEM DE LHES DAR COM UM PAU] Ora, isto levará inevitavelmente a que os restaurantes de comida portuguesa vão paulatinamente fechando as portas, à míngua de clientes. [ZÉTÓ, PSST, O GRUPO DE RESTAURAÇÃO MAIS IMPORTANTE DE LISBOA ACABA DE ABRIR UM. CHAMA-SE PICA-PAU. VAI LÁ, ZÉTÓ. É BOM. OUTRA COISA, MAS NÃO DIGAS A NINGUÉM. UM DOS QUE MAIS FACTURA CHAMA-SE SOLAR DOS PRESUNTOS. E TAMBÉM SERVE COZINHA BEM PORTUGUESA].

Diga-se que já não é fácil, nos dias de hoje, encontrar um restaurante onde se coma uma pescada cozida com batatas e grelos [SÓ ME ESTOU A LEMBRAR DE UNS 30, E AINDA NÃO SAÍ DO BAIRRO DE ALVALADE], ou uns carapaus assados com molho à espanhola [À ESPANHOLA, FRANCAMENTE…], ou umas pescadinhas de rabo na boca fritas com arroz de tomate, ou um coelho à caçadora [FETICHE, ZÉTÓ?], ou umas iscas com elas [OUTRO FETICHE?], ou um borrego assado no forno, ou até um cozido à portuguesa.

….

Depois há o fenómeno do turismo. Embora ainda existam aqueles turistas que gostam de explorar a comida dos países que visitam – e que até acabam em muitos casos por apreciar os nossos pratos –, a verdade é que o turismo mudou. Impôs-se em Portugal o turismo de massas – e essa gente [EXTERMINAMO-LOS, SUFOCAMO-LOS COM PIZZA HUT] quer comida internacional, fast food. No fundo, quer o mesmo que as crianças: os hamburgers da McDonald’s, as pizzas da Pizza Hut, os sushis…

A vida das famílias também mudou, e isso trouxe grandes alterações nesta área. Acabaram as ‘donas de casa’ que passavam o dia na cozinha a fazer comida para a família toda [AH, SAUDADES. E A MOCIDADE PORTUGUESA…]. Essas mulheres funcionavam na prática como guardiãs das velhas receitas, pois faziam os pratos que tinham aprendido com as mães ou as avós. Mas hoje nenhuma mulher, mesmo que esteja em casa, quer passar o dia na cozinha. E as que trabalham ainda menos [UMAS GALDÉRIAS].

Assim, muitos pratos que antes se comiam em casa desapareceram ou estão em vias de extinção. E aqui incluo os pastéis de bacalhau, as pataniscas, os rissóis, os croquetes, o bacalhau à Gomes de Sá e outros que resultavam do aproveitamento de ‘restos’. Na maioria das casas já só se cozinham coisas simples [LÁ ATRÁS DISSESTE QUE GOSTAVAS DE COISAS SIMPLES, ZÉTÓ]. Ou vai-se buscar comida ao takeaway – prática que a pandemia estimulou [FETICHE III]. Ou encomenda-se através da Uber Eats ou da Glove [GLOVO]. Hoje, em todas as principais cidades do país, vemos jovens de bicicleta, lambreta [???]ou mota, com mochilas verdes ou amarelas às costas, transportando comida.

Com o desaparecimento da cozinha tradicional portuguesa, que não aguentará mais duas gerações [O QUE VIRÁ, EM 2200? COZINHA TRADICIONAL DO BUTÃO?] , parte do nosso património cultural perder-se-á [TRANSFORMAR-SE-Á]. E espanta como o fenómeno foi tão rápido [MAS, AFINAL, JÁ FOI? NÃO É DAQUI A DUAS GERAÇÕES. AMANHÃ AINDA HAVERÁ DOBRADA?].

É também surpreendente como cozinhas muito mais pobres se impuseram à nossa: a americana com os hamburgers, a italiana [PAUPÉRRIMA] com as pizzas, as lasagnas, o spaguetti ou o risotto, a japonesa [PAUPÉRRIMA] com o sushi, a árabe [PAUPÉRRIMA] com o kebab. E, a um nível mais sofisticado, a nouvelle cuisine francesa, que domina os restaurantes de luxo, com estrelas Michelin [A NOUVELLE CUISINE NÃO DOMINA DESTE PELO MENOS OS ANOS 1990, ZÉTÓZÉTÓ].

A propósito, já falei de experiências pessoais em restaurantes estrelados [JÁ FALASTE]. Certa vez pedi um borrego assado e trouxeram-me uma pasta supostamente de borrego desfiado, esmagado e compactado, apresentada em forma de cilindro, com um raminho de hortelã em cima. Outra vez pedi um caldo verde com chouriço e veio o caldo verde sem o chouriço; uns momentos depois, porém, surgiu uma empregada com um spray na mão (o que me causou estranheza, pois não tinha pedido um tira-nódoas [AHAHAH. ESTIVESTE BEM, AGORA]) que disse «chouriço» – e apontou o spray para o caldo verde, formando-se uma pequena espuma com sabor a chouriço. Mas a experiência mais traumática foi a deglutição de um fígado de pato inteiro [NÃO SERIA DE GANSO? CHAMA-SE FOIE GRAS], que vinha numa canja, e que não consegui mastigar [ESTÁ NA HORA DE PÔR ESSA PLACA, ZÉTÓ]. Vi-me grego [???] para o engolir: estava a ver que me ficava preso na garganta e que morria ali sufocado.

Dentro de duas gerações a cozinha portuguesa terá praticamente desaparecido [PRATICAMENTE, MAS NÃO TOTALMENTE. JÁ HOUVE UMA EVOLUÇÃO]. A alimentação estará quase reduzida à fast food e à nouvelle cuisine (esta nos restaurantes muito caros e onde a comida é escassa [AH, SAUDADES DA MEIA SARDINHA POR DIA], servida nuns pratos enormes para tornar o contraste maior [???]).

Paz à sua alma!

P.S. – Quando esta crónica estava escrita e paginada, soube-se da morte de Maria de Lourdes Modesto – porventura a grande referência da cozinha tradicional portuguesa. Assim, a publicação deste texto na semana em que se deu aquele triste acontecimento é pura coincidência. Mas significativa…[TRÁGICA, ZÉTÓ, TRÁGICA]

5 comments on “

  1. Lídia Brás

    Ricardo… grande edição! 😄
    Gosto particularmente da parte em que as mulheres já não passam os longos dias em volta dos tachos… que cambada!!!
    Um grande beijinho desde o Norte! 🙂

  2. Simplesmente delicio ! Adorei os comentários 😂

  3. João Canijo

    Boa Ricardo!! O Zé Tó merece, e já merecia mais e há mais tempo.

  4. Filipe Freitas

    Muito bom. Ahaha.

  5. Estou a espera já 10 anos para ler artigo. Já estava a perder a esperança. . George Reis
    Brooklyn, NY

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