O ÚLTIMO HAMBURGUER EM PARIS

Fica aqui o roteiro de alguns dos sítios por onde passei em Paris, todos citados na imprensa como restaurantes do momento ou clássicos da cidade. Nem todos extraordinários.

Le Servan

Aberto em Abril, é talvez o restaurante com mais onda (e imprensa) do momento. David Chang, o chef estrela norte-americano, esteve lá há dias. Situado no sofisticado bairro de Marais (muito Lower East Side) tem à frente duas irmãs, uma delas com experiência na alta cozinha francesa (L’Asperge, de Alain Passard, e L’Astrance, de Pascal Barbot).

Sabendo isto, tentei a minha sorte com uma reserva para o almoço. Comecei a ligar para lá mal aterrei em Orly, mas fui remetido para o atendedor de chamadas. Só consegui chegar à fala quatro dias depois: havia lugar, sim senhora, e para esse mesmo dia.

Chegado ao local, identifiquei de imediato uma das simpáticas donas. O espaço pequeno, vinte e poucos lugares, mobiliário em segunda mão (onde já vi isto?), colunas sem reboco, ambiente sem dress code, égalité, égalité! À minha frente, dois homens das obras vestidos à homens das obras, camisolas cavas e calças pintalgadas, a serem atendidos como se fossem o Bono Vox. Vive la France!

Não havia escolha à carta, só menu de almoço. Pedi as sardinhas cruas para entrada: duas delas, filetadas, sem espinhas; em volta uma salada de coentros, flor de manjericão, tomates cereja saborosíssimos e groselhas. Fresco, aromático, Portugal e Vietname no mesmo prato.

Vieram depois dois blocos de entremeada de leitão tenros, a pele estaladiça, espicaçados por um jus de carne tipicamente francês, bem feito. A acompanhar, milho: em grão, com chalotas e molho de manteiga e limão, e em maçarocas micro, assadas.

Para sobremesa, mousse de queijo fresco com frutos vermelhos e destroços de suspiro. Combinação clássica e vencedora.

Bebeu-se uma cerveja artesanal de Paris e um copo de vinho tinto sobre o qual não apontei a referência, mas que me pareceu fracote. Serviço atencioso e sorridente.

A conta uma boa surpresa: 36 euros. Em todo o caso, pergunta-se: tanta excitação, porquê?

 

Higuma

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Andava já há algum tempo para visitar o restaurante onde Francisco Lopes, do extinto Assuka, trabalhou e aprendeu a fazer as suas sopas Ramen, há mais de 20 anos. O Higuma é, ainda hoje, um dos locais de referência em Paris para comer esta sopa japonesa (de origem chinesa). O seu sucesso foi de tal ordem que a empresa abriu outros restaurantes na cidade.

Fomos ao da Boulevard des Italiens, junto à Opera, por questões práticas. A carta é praticamente igual à da do Assuka, inclusive as denominações das sopas como “Lamen” (e não “Ramen”), termo também correcto mas menos popular no Ocidente. Quanto à qualidade: boas, mas sem o refinamento das de Francisco Lopes, devo dizer. Excelente negócio, ainda assim: dificilmente se come tão bem em Paris por 9 euros.

 

Pho14

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No género sopa asiática, o Pho 14, em Tolbiac, no 13e arrondissement, é imperdível. Come-se pho, naturalmente, um caldo de carne translúcido cheio de ervas frescas (incrível o manjericão tailandês) e noodles. O meu preferido é feito com tendões de vaca e tripas. Dois problemas: a espera e o serviço stressante.

 

Agapes

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Talvez a refeição que mais me satisfez durante esta estadia aconteceu neste pequeno bistrot de bairro, no 5e arrondissement, perto da Boulevard Saint-Marcel. Saí de casa sem destino, passei por ele, vi que estava praticamente cheio mas tinha uma mesinha vaga a um canto*. Num quadro, cá fora, anunciavam-se coisas muito francesas como o agneau d’Auverne.

A abrir, escolhi as gambas com alcachofra e uma mousse de curgete com laranja: mar e campo, excelente. Depois, onglet de boeuf com cogumelos. A carne saborosíssima, assada à parte; por cima cantarelos e chalotas em molho de manteiga; em volta um maravilhoso jus de carne. À parte, cestinho de batatas novas com pele, demasiado cozinhadas, engelhadas e farinhentas.

A terminar, um Crème Réplisse: fresco, cheio de anis e menta, bolacha e bola de gelado de chocolate. Embebeu a refeição água do cano e um excelente copo de tinto de Saint Chinian, L’excellence de Saint-Laurent, 2012, (5,80€). Conta total: 42,80 euros. Très bien.

 

Le Camion qui Fume

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hype deste camião de hambúrgueres, gerido por um casal norte-americano, teve o seu auge no ano passado, mas a loucura (que incluiu a publicação de um livro de luxo) não esmoreceu em 2014. Daí termos apanhado o Métro de propósito para os ir provar até à zona da Bibliotheque François Mitterrand (a dar voltas na tumba, com certeza), onde estavam estacionados.

Uma vez lá, impaciente, a minha filha perguntava: “Onde está o camião, pai, onde está?” E eu respondia: “Está onde vires uma fila muito comprida”. Não me enganei. Ei-la, longa como a do Louvre, uma hora de espera. Resistimos estoicamente, mas no fim foi a desilusão e a fúria. Todos de acordo em que o hambúrguer era mau e caro (10€, com batatas fritas ou uma salada coleslaw incomestível). O pão esfarelado, a carne banal, o queijo Cheddar por derreter, as batatas sem graça.

Muitos pontos abaixo, por exemplo, do hambúrguer do To Burguer or not To Burguer, na nossa Praça de Londres, que comera na semana anterior.

Mesmo ao lado estava também o camião do The Sunken Ship, muito falado recentemente mas sem um décimo da clientela. Peixe frito com batatas fritas: polme gorduroso, batatas sem graça e, curiosamente, iguais ou muito parecidas às do vizinho.

Enquanto isso, no meio da praça pessoas dançavam espontaneamente, ao som de lindy hop, não particularmente bem. Antes tango.

 

* 10 dicas d’OHQCT para escolher um restaurante olhando para ele:

1. Só entre num restaurante vazio caso seja cedo (12.30, 19.30) e saiba que vai encher. Nesse caso, este é o melhor cenário possível para comer bem porque apanha o chef e os empregados ainda frescos.

2. Sem informação prévia, escolha um restaurante cheio só com uma mesinha vaga para si.

3. Evite restaurantes que têm um empregado à porta com uma menu na mão.

4. Atenção aos restaurantes com menus que usam uma fonte tipo Edwardian Script. Em 67 por cento dos casos, o preço é alto para o que come.

5. Só almoce num sítio com fotos dos pratos expostos se estiver numa casa de kebabs.

6. Evite restaurantes com louça suja em mesas já desocupadas.

7. Não almoce num sítio com cheiro a tabaco e álcool ressequido. Muito provavelmente funcionou como bar à noite. Muito provavelmente os funcionários estão ressacados.

8. Não se arrisque num restaurante alcatifado.

9. Não se arrisque num restaurante com molduras douradas.

10. Não se arrisque num restaurante com copos de vinho coloridos.

 

 

 

2 thoughts on “O ÚLTIMO HAMBURGUER EM PARIS

  1. Esqueci-me de te sugerir o restaurante que mais gostei em Paris, o “Le Tambour” – Bistrot de l’urbain bucolique, na Rue Montmartre. Já foste lá?

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