CAIS DA PEDRA. A HAMBURGUERIA-PASSARELA.

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“Não há no mundo um sítio onde as pessoas se produzam tanto para ir comer a merda de um hambúrguer”.

Os hambúrgueres estão na moda e são um fenómeno incomparável. Em Nova Iorque, por exemplo, a paixão é antiga, mas recria-se constantemente. Agora, inventaram um hambúrguer que em vez do pão tem noodles (esparguete chinês) compactados, a entalar a carne. Um sucesso, filas ridículas.

Em Paris, berço da alta gastronomia, o grande êxito chama-se Le Camion qui Fume. Hambúrgueres feitos numa camioneta. A mentora do negócio, norte-americana, publicou mesmo um livro. O luxo da edição compara com as obras impressas de Ducasse, embora o génio francês não tenha direito ao escaparate da Colette, a exclusiva e muito hipster boutique da Rue Saint-Honoré, e o receituário do Camion lá esteja, ao lado de ensaios fotográficos de autores vanguardistas coreanos.

A origem do hambúrguer é Hamburgo, a cidade portuária alemã. Mas foram os norte-americanos, influenciados por imigrantes germânicos, quem popularizou o pacote actual, um condensado de várias coisas boas e viciantes: carne, pickles, molhos (sobretudo maionese e ketchup), pão e batatas fritas. À parte vegetarianos ortodoxos e recém-nascidos, as pessoas normalmente gostam, frequentemente adoram.

Tudo isto é do conhecimento de chefs e de empresários, portugueses incluídos. Daí que, hoje, tenhamos muito mais hamburguerias do que alguma vez tivemos, e nem todas sejam McDonald e algumas até se auto-intitulem gourmet.

Em Lisboa, o projecto mais ambicioso parece ser o de Henrique Sá Pessoa, apresentador do programa de televisão Ingrediente Secreto e chef do Alma, onde pratica cozinha de autor. O seu Cais da Pedra, na doca de Santa Apolónia, ao lado da Bica do Sapato e da pizzaria Casanova (vénia), é um espaço vasto e muito bonito, com uma vista magnifica sobre o rio Tejo.

Ao entrarmos damos com a sala em open space, o bar a servir de recepção. Amplos espelhos de um lado, do outro a cozinha, aberta, estendendo-se ao longo da parede até à esplanada. Sóbrio, limpo, luminoso, podíamos estar na Europa.

A inauguração, em Abril, mereceu larga cobertura mediática, das publicações especializadas ao cor de rosa – e isso nota-se no tipo de freguesia. Mesmo no mês de Agosto, quando a maior parte do jet set já rumou a sul e anda a inalar cocaína na marina de Vilamoura, ainda há um jetsetezinho que mete os seus melhores decotes e as suas melhores camisas e permanece em Lisboa a enfartar-se de hambúrgueres no Cais da Pedra.

Porquê? Não sei.

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Numa visita recente, o pão não tinha graça e estava seco. A cebola apresentou-se cozida e mole. O cheddar do cheeseburguer seria melhor não estar lá; noutro hambúrguer, o gorgonzola também surgiu mal. E depois a carne: insípida, desfalecida, partida, e provavelmente sem lume suficiente para se ter produzido aquela crosta caramelizada essencial, indicativo de que os aminoácidos e os açucares se transformaram em aromas e sabores complexos (reacção de Maillard).

No fundo, um pedaço monótono de proteína, sem pimenta, sem ácido, sem sabor e sem interesse.

Nos acompanhamentos, as batatas fritas boas. Já a batata doce revelou uma cozedura excessiva. Boas também as azeitonas e o pão, tipo Mafra.

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Sá Pessoa é um bom chef. Quem me dera poder alimentar-me todas as semanas da sua cozinha. E também parece ser boa pessoa. Mas os hambúrgueres servidos no Cais da Pedra são fraquinhos fraquinhos. Mais: também são carinhos carinhos: por menos de 15 a 20 euros não se faz a festa. Com metade, comi há uns dias um hambúrguer como deve de ser no Maratona, restaurante e cafetaria nas Caldas da Rainha, sobre o qual se escreverá aqui brevemente, melhor em tudo.

Em conclusão, já vimos isto. Alguém famoso domina um sector, conhece um sector; depois vê uma nova tendência lá fora, boa oportunidade de negócio, e vai atrás dela. A nova tendência não é bem a vocação da pessoa, mas até nem parece difícil e o terreno está livre. A celebridade do nome, mais a visão de mercado, mais a decoração farão o sucesso.

No caso do Cais da Pedra, no dia em que lá fui, a clientela era bastante, ainda para mais com bom aspecto. Como a Sílvia comentou, não haverá em todo o mundo um sítio onde “as pessoas se produzam tanto para ir comer a merda de um hambúrguer”.

10 thoughts on “CAIS DA PEDRA. A HAMBURGUERIA-PASSARELA.

  1. Fui lá levado por mão amiga que ia deixando de o ser. Uma am
    álgama de carnes moídas, um pãozinho sem sal, umas bartatas que precisavam de uns murros e umas manhosas armadas em boas a ver se alguém as vê. Em plena hora de almoço o chefe – agora são todos chefes – a fazer-se fotografar e a ser entrevistado. Eu sou como o meu cão, quando estou a comer quero estar sossegado. E caro, e caro.
    Nunca mais, Deus permita.

  2. Como em tudo na vida, não interessa ter a sardinha mais fresca, interessa é vende-lá como tal.
    Eu, estando familiarmente ligado ao ramo da hotelaria (pastelarias e padarias e restaurantes) na zona de Viseu, já desisti.
    As pessoas simplesmente não percebem nada, querem e bolos coloridos carregados de corantes artificiais e pães enormes inchados pelo fermento, refeições de travessa cheia a preço de custo.
    A percentagem de clientes que consegue distinguir e dar valor a um produto com qualidade é muito reduzida porque as pessoas foram anos e anos alimentadas com produtos tão fracos, industriais, pré cozidos e congelados, que perderam o conhecimento do que é um produto de qualidade e acham que esses produtos são os “normais”‘.
    E quando, por exemplo, lhe apresentam um bolo de arroz feito da forma tradicional (devem contar-se pelos dedos de uma mão as casas que no pais ainda os fazem) estranham pq não conhecem.
    Assim vai a nossa cozinha
    Desculpem o desabafo, cumprimentos de um leitor pouco comentador, mas visita frequente

  3. Estive com um grupo de amigos e fui voto vencido entre o Cais da Pedra e o CasaNova. Pensei que afinal tinham razão quando vi as mesas cheias e o DeliDelux às moscas. Peguei no cardápio, mas antes de escolher dei uma olhada nos hamburgues da mesa ao lado. Achei-os mirrados e o pão… reles… Como não tinha como fugir dali, optei por uma salada. E depois da opinião dos meus decepcionados amigos, não me arrependi da minha escolha e não pretendo voltar.

  4. Olá Ricardo, estive há duas semanas no Cais da Pedra pela primeira vez. A decepção foi enorme – tu ainda gostaste de algumas coisas, eu zerei do princípio ao fim… Assim que saí escrevi um post sobre a visita, que já tinha estado noutros restaurantes do chef, que tinha gostado muito, blá blá blá, mas que este era uma tristezinha. Antes de publicar, reli e achei super azedo, sem condizer com o blog, por isso anda por lá em suspenso. É uma pena, porque o restaurante é lindo e a equipa é simpática e as coisas funcionam. A comida é que é uma lástima. bjs e conta lá do outro que é bom.

  5. Não conheço mas perdi a vontade de conhecer. A verdade é que com tanta oferta de hambúrguer (sem contar com o Mc Donald’s e demais cadeias de fast food), convém que eles sejam mesmo bons, saborosos, bem feitos. Não é preciso inventar muito (a roda já foi inventada). E com preços desses prefiro dedicar-me a comer outras coisas, até porque bons hambúrgueres se podem fazer em casa, com extra-queijo, extra-cebola, molhos e bacon sem nenhum extra no preço final. No Honorato paguei 50 cêntimos por pedir maionese no hambúrguer…

    Bom post e bom blogue.

    Raquel

  6. Boa noite, fui lá de mente aberta, até porque nem conhecia, nem nunca tinha ouvido falar… Foi uma excelente experiência. Casa composta, talvez devido a um tal RIR, algumas mesas livres. Excelente atendimento, friso, Excelente atendimento. Muito rápidos. Entradas óptimas, simples mas bem conseguidas, o hamburguer delicioso. O ambiente do restaurante, é bastante urbano, equiparado a qualquer um dos melhores e mais modernos sitios que visitei lá fora. A música, a decoração, tudo! Não percebo tanta decepção aqui nestes comentários, se calhar tive sorte. E não fosse o preço de facto ser puxadinho para um hamburguer e teria sido uma experiência 5*. Gostei muito e recomendo!

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