SOBRE O GELADO DE PISTÁCHIO. DO EPISÓDIO “CONCHANATA” AO PARAÍSO

conchanata

Para mim, não há gelado como o de pistáchio. Os meus filhos perceberam há dias como esta convicção é funda e séria. Tínhamos ido à Conchanata e eles assistiram a uma altercação com os donos da loja por causa disto mesmo. Estavam já descansados na esplanada, com uma taça de morango e nata, e eu fiquei para trás a escolher os meus sabores.

–      Você quer mesmo pistáchio?!” – perguntou a senhora atrás do balcão.

–      Sim. Não devia?

–      Eu não gosto nada…

O diálogo podia ser um sketch dos Monty Pynthon, mas era só a dona da geladaria Conchanata a ser a dona da geladaria Conchanata.

A mítica loja da Avenida da Igreja, em Lisboa, sempre teve um atendimento desconcertante. Lembro-me de na minha estreia, há uns anos, pedir um café e quase ser corrido à biqueirada, que aquilo era uma loja especializada, não um snack bar.

Noutra circunstância, fiquei indeciso no instante de dizer o pedido.

[Este comportamento é muito raro em mim, mas extremamente comum no resto da população mundial. Quando perante uma vitrine geladeira, a maioria das pessoas bloqueia, e deve ser de alegria. Anteontem, na Santini do Chiado, por exemplo, vi uma mulher demorar uns dez minutos até se decidir, vinte pessoas atrás de si e ela numa hesitação aflitiva e paralisante. Ora escolhia chocolate, ora morango, ora renegava a ambos, ora pedia conselho à amiga, ao amigo e ao funcionário (dotado de uma paciência canabinoidal), ora desdenhava de todos eles e emaranhava-se de novo no seu próprio processo selectivo.]

Aos três segundos de espera, a imponente dona Conchanata começou a bufar. Aos quatro, fitou-me como um boi antes de investir.

–      Diga lá, por favor.

Pressionado, escolhi limão e tangerina. No outro dia tinha três aftas.

Desta vez, decidi que não iria ceder aos seus jogos psicológicos. Insisti no gelado de pistáchio. Logo à primeira colherada, já a sair para a esplanada, percebi tudo: o pistáchio sabia a amêndoa amarga. Meia volta, aquilo não ficava assim.

–      Desculpe, tem razão em não gostar deste sabor, mas porque o seu pistáchio não é bom.

Ui, ui. Nisto, o marido surgiu lá de trás. Brusco, garantiu que o sabor supostamente estranho do gelado de pistáchio se devia ao facto de a produção daquele sabor obedecer a um método particular.

–      Ninguém compra pistáchio para fazer gelado. O que se compra é a pasta de pistáchio – explicou-se.

Tinha já provado na minha vida uma boa quantidade de gelado de pistáchio e achei-me com autoridade para ripostar.

–      O problema é que este gelado não sabe a pistáchio. Sabe a uma coisa entre o xarope e a amêndoa – asseverei, trémulo.

Ui, ui, ui. O homem ficou ainda mais irado. Nesta altura, sacou do currículo vitae – “Eu sou italiano” – e garantiu que não encontraria diferente. Eu garanti que encontraria. E encontraria. Ao chegar à esplanada, a prole aguardava-me, envergonhada.

–      Por que é que estavas a discutir com o senhor? ­­­– inquiriu a minha filha de oito anos, severamente.

–      Não estava a discutir, estava a debater.

–      Sobre o quê?

–      Gelado de pistáchio.

Saí da Conchanata decidido a fazer prova da minha tese. Nas semanas seguintes, chateei produtores, consultei literatura especializada e experimentei sete gelados de pistáchio diferentes, de entre as melhores lojas de Lisboa.

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A pesquisa foi de tal forma que os meus filhos, quando nos aproximávamos do balcão de uma geladaria, antecipando a escolha, já reviravam os olhos e protestavam, sempre o mesmo, sempre o mesmo, pai!, mas tu afinal és o homem que comia tudo ou és o homem que comia pistáchio!

A Sílvia, que partilhou comigo muitos deles, de início aborrecia-se mas depois começou a entrar no espírito e hoje é uma pessoa extremamente qualificada no assunto.

Ao senhor Conchanata devo dizer o seguinte. Não só todos os seus concorrentes têm gelados de grande qualidade de pistáchio, como ou usam pastas 100 por cento pistáchio ou trabalham o próprio fruto seco.

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A Amorino, por exemplo, tem um incrível gelado de pistáchio importado de Bronte, na Itália, e outro do Bósforo, mais doce e menos interessante. A Fragoleto afirma que desfaz ela própria os pistáchios: o gelado é torrado, concentrado, amanteigado. O da Oficina do Gelado, inaugurada há pouco no Parque das Nações, surgiu escuro, intenso, deliciosamente untuoso, muito bom (diz que o de avelã também se recomenda). Lá bem no topo, os da Artisani e da Santini, muito parecidos, cremosos, o sabor a pistáchio bem presente, aquela ambivalência subtil e  extraordinária de doce e salgado e pequenos fragmentos crocantes do fruto seco conferindo textura.

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É preciso que se diga que todos estes geladeiros são incrivelmente altruístas. O pistáchio é caríssimo, seja ou não em pasta. Se as pessoas tivessem a minha compulsão, algumas lojas já teriam falido. Para se ter uma ideia, 250 gramas de pasta 100 por cento de pistáchio de Bronte custa 35 euros, encomendando na Internet. Os turcos e os iranianos são mais baratos, mas oferecem menos garantias de qualidade.

Compreende-se, por isso, de alguma forma, que o senhor Conchanata compre pastas de mistura ou com extracto de amêndoa. O que não se compreende é que propague que todos fazem igual. Não fazem, e isso tem um custo, honra lhes seja feita. Para nossa felicidade.

16 thoughts on “SOBRE O GELADO DE PISTÁCHIO. DO EPISÓDIO “CONCHANATA” AO PARAÍSO

  1. Lamentável o homem que comia (quase) tudo ainda não ter comido o gelado de pistáchio da Gelateria Nannarella. Fico a aguardar o veredicto.

      • É verdade que o horário não ajuda. Mas vale a pena continuar a tentar.

        (eu consegui este sábado; pistáchio, chocolate e zabaione.)

  2. Ahahahahah numca me esquecerei do pepel na parede da Conchanata: “quere provar outros sabores? Coloque-se na fila, escolha, pague e dê a vez a outro” (ou algo assim do género) . E devias ter dito ainda q os gelados deles sao insuportavelmente doces, sobretudo aquela calda da famosa conchanata

  3. E eu a pensar que era o unico que pedia pistachio…no entanto é engraçado porque gosto do gelado mas não muito do fruto em seco!

  4. Caro amigo André Calado, até aqui te encontro. Quanto à questão do pistáchio, ontem comi um kulfi do fruto em questão incrivel. Vindo dos donos da conchanata, já nada me espanta. adoro especialmente o argumento da nacionalidade… portanto eu sendo português sou um óptimo calceteiro🙂

  5. Pingback: NO GELATO FOR YOU! | O Homem que Comia Tudo

  6. Não é por acaso que há quem diga que o episódio do Seinfeld “O Nazi das sopas” foi inspirado numa visita do Seinfeld a Lisboa em que passou na Conchanata.

  7. Eu tenho que admitir que nunca fui à Conchanata, mas só pela referência ao “Soup Nazi” vou fazer questão de ir🙂
    Um grande bem haja amigo Samuel Marques!!!

  8. O melhor gelado de pistachio que comi na vida foi em Roma, Dezembro passado. Não era verde (mas sim entre o castanho e o bege) e era de uma pessoa ir ao céu. Uma colher dele na boca e parecia que estava dentro de um pistáchio. Ou que era um pistáchio.
    E é dos meus sabores de gelado preferido (é o preferido mesmo, da minha irmã, que eu sou mais do género de cada vez que vou a uma gelataria provar uma coisa diferente), são deliciosos.
    Nunca ouvi falar da Conchanata, mas pelos vistos ainda bem! Que eu só gosto de amêndoa num gelado que prometa amêndoa…

  9. O gelado de pistachio foi coisa que nunca me convenceu, mas, posso garantir que os melhores gelados (sobretudo de fruta) estão quase a chegar a Lisboa🙂
    Na feira internacional de artesanato, ali na FIL – Expo, em Julho, vai sempre um italiano (o falso argumento da nacionalidade, eu sei…) que tem um stand de gelados maravilhosos… O de pistachio nunca experimentei, mas os outros… O de meloa e o de manga são melhores que a própria fruta! E dentro dos frutos secos, quem me tira o de avelã tira-me tudo.

  10. Mas quem é que vai à Conchanata e pede outra coisa para além de Conchanata, toda ela de gelado de nata?
    Se se querer Conchanata, fácil, é ali. Gelados já não é ali, é noutro lado.
    Estes são melhores que o soup nazi. É que para além de serem truculentos, ainda é possível assistir a uma discussão conjugal.

  11. Sou frequente da Conchanata há anos e conheço muito bem o seu atendimento.
    O gelado de pistachio é simplesmente delicioso e aftas é algo que não acontece por aquelas bandas, pela simples razão de os gelados não terem químicos. Deve-se ter confundido com o Santinho.
    Tenha vergonha. Não acredito num parágrafo deste texto.

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