Voltar ao Cacém – Restaurante Dim Sum

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Há muito tempo que não ia ao Cacém. O meu pai trabalhou lá faz uns 30 anos. Tenho esta ideia de ser criança e ir ter com ele a uma empresa de engenharia civilizada, com patos felizes no jardim e um pavão para entreter os filhos dos funcionários. A empresa não prosperou ou o meu pai não prosperou na empresa e acabaram as visitas, mas não me sai da cabeça um edifício moderno e ecológico – tudo o que não estamos à espera no Cacém.

Regressei já adulto e jornalista, duas décadas depois, pela mão de Maria José Ritta, na presidência de Jorge Sampaio, outra vez para ver coisas edificantes. Fomos à escola secundária Ferreira Dias, apontada como modelo na integração de imigrantes, e ouvimos muitas daquelas histórias de alunos de Leste que, embora acabados de atravessar a fronteira, resolviam melhor equações com um neurónio do que os colegas portugueses com o cérebro todo e liam Luís de Camões na sanita e declamavam os 308 concelhos portugueses em apenas 32 segundos e 23 centésimas.

Naturalmente, os pequenos prodígios eslavos, entretanto, perceberam que o país não se recomenda e que qualquer ex-república soviética, mesmo que governada por oligarcas corruptos e presidentes que montam a cavalo em tronco nu é preferível a isto e puseram-se a mexer daqui para fora.

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Neste aspecto, os chineses são de uma estoicidade incomparável – e não apenas por continuarem no Cacém e abrirem lá restaurantes. Mesmo com o país no estado em que está, não desarmam, não desistem, não desaparecem, não param de cozinhar para nós.

Os chineses aguentaram Salazar (poucos, é certo); depois do 25 de Abril representaram sozinhos a cozinha étnica em Portugal; depois os milhões da CEE trouxeram a ideia de que o chique era o italiano e o caro; nos anos 90 levaram com as cadeias de fast food, as picanhas e as pizas; no século XXI apareceu a moda do japonês (e alguns reconverteram-se, o que só mostra a extensão da sua técnica); e mais recentemente uma campanha da ASAE matou muitos.

É justo dizer-se que alguns dos restaurantes chineses que sucumbiram não tinham qualidade, nem serviam comida chinesa. Mas outros, como o Restaurante Dim Sum, razão que me levou novamente à cidade de Agualva-Cacém, são cozinha de excelente nível, autêntica e saborosíssima – que sobrevive a qualquer tendência e a qualquer campanha.

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Quem mo recomendou como sendo o melhor sítio para comer dim sum na Grande Lisboa foi um desses cozinheiros apaixonados que dão o cabedal pelo chef doze horas por dia e ninguém conhece. A dica vinha com uma garantia de qualidade importante. “Já lá vi as senhoras a fazer a massa à tarde”.

A massa é a cobertura de farinha de trigo ou de arroz de boa parte dos dim sum (nome dado a pequenas doses de comida chinesa, no fundo uma espécie de tapas, frequentemente em forma de ravioli, cozidos ao vapor). A maioria dos dim sum que se comem por aí são de venda industrial e comprados congelados ou só o recheio é acrescentado no restaurante.

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Há uns dias, lá fomos. Metemo-nos no IC19 e foi um instante. O IC19 parece que foi feito para nos levar ao Cacém: sai-se onde diz Agualva-Cacém e ainda vamos a meio da curva do entroncamento e já estamos dentro da terra. Uma vez lá, jardins e até resquícios de zona histórica preservada, também alguma personalidade no caos, entre o operariado, o idoso e o multi-étnico – um certo espírito Cacém, digamos, duro e combativo. Eu é que não trocava isto por Odivelas.

Depois, é seguir a placa. Qual placa? A placa. Todas as placas no Cacém parecem indicar a escola Ferreira Dias. Em certas vilas, indica-se o museu, noutras ao pé do mar a praia, noutras o castelo – no Cacém as placas indicam a escola secundária, prioridade à educação. Uma vez na escola, o restaurante fica mesmo em frente, com um cartaz grande a anunciá-lo e um quadro de pandas a comer bambu na entrada. Lá dentro, uma sala luminosa (janelões com vista para a… escola) e outra interior, naquele estilo enfeitado dos restaurantes chineses com quadros de plástico e tectos falsos e tudo falso.

Tudo menos a comida, já se percebeu, e, acrescento, a empregada: bonita, simpática, conhecedora e falante de português.

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No resto, correu assim.

A abrir, bolinhos fritos de carne de porco com cebolinha, a massa em farripas estaladiças. Muito bons. No ritmo certo chegaram uns ravioli de gambas com barbatana de tubarão (yu chi kao), mais os clássicos bolinhos de gambas e carne de porco (siuw mai) e outros de gambas com couve chinesa (ba choi guo).

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Muito recomendável também o pato, em fiapos com sementes de sésamo, enrolados na mesa em folhas crocantes de alface. Provaram-se ainda dois pratos fora do dim sum. Um arroz arroz chau chau rico, seco e solto, com extra de porco e pimento em cubos. E uma carne de vaca com legumes, cogumelos chineses (bem re-hidratados, o que nem sempre acontece) e maçarocas mini sobre um ninho de massa finíssima de trigo, seca e dura.

Éramos quatro, cada um pagou 15 euros.

Voltaremos ao Cacém.

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