Books for Cooks. A livraria mais saborosa de Notting Hill

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No caminho demorei-me na Westbourne Grove. A rua mais exclusiva de Notting Hill aloja algumas das galerias mais sofisticadas e vanguardistas de Londres. E é também uma montra de comida, onde a comunidade artística e rica da zona oeste de Londres pulula entre restaurantes da moda, supermercados biológicos, delis, bistrôs, salões de chá e talhos finos.

Logo no início da rua, um homem de sobretudo de caxemira, empurrando com uma mão o carrinho de bebé McLaren e com a outra a trela do cãozinho vestido de lã, analisava a fruta da época, exposta na entrada do Planet Organic. Mais à frente, o mesmo senhor, pararia na Tavola Delicatessen, onde se anunciava a chegada de novos azeites da Toscânia.

Lá dentro, um grupo de mulheres, longe do estereótipo britânico bolachudo e descolorido – deliciava-se com um lanche festivo. O espaço era ao mesmo tempo galeria e loja de decoração e de moda e cabeleireiro – tudo numa desarrumação pós-moderna e pop.

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À medida que descia a Westbourne confirmava aquilo que já lera um pouco por todo o lado: que os ingleses, habitualmente caricaturados como amantes de feijão com molho de tomate, tornaram-se apaixonados da cozinha; e que Notting Hill é uma espécie de expoente máximo desse espírito gourmet.

A comida, aqui, tem o mesmo tratamento dos ateliers da alta-costura, sobretudo no cuidado com a imagem, na forma como os produtos são embrulhados, estilizados, na decoração minuciosa do comércio. Mesmo as cadeias de restaurantes – e em Londres há muitas – concebem cada loja como se fosse única, recorrendo a designers e arquitectos. O italiano Carluccio’s da Westbourne Grove, por exemplo, deli e restaurante, é uma obra magnífica de design. E o mesmo vale para os Ping Pong, restaurantes trendy de comida chinesa (especialidade de dim sum), que subvertem todo o imaginário da decoração típica destes estabelecimentos.

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Já no fim da Westbourne, cortei na mítica Portobello Road. A sofisticação misturava-se com o ambiente feirante: antiquários, roupa freak, bugigangas, quadros de pintores amadores, padarias, o Gourmet Burguer Kitchen (cadeia de hambúrgueres de qualidade) e um talho extraordinário, o Kingsland Butcher, todo em madeiras escuras, apenas carne biológica, enchidos e tartes caseiras, onde Claudia Schiffer costumava abastecer-se.

Nada disto, contudo, me deteve: a incursão a Notting Hill tinha um objectivo bem definido, que projectara há alguns anos. A Books for Cooks aproximava-se inapelavelmente. O mapa que imprimira, a partir do site da livraria na Internet, indicava que faltaria uma centena de metros para o número 4 da Blenheim Crescent, uma pequena rua perpendicular a Portobello Road, a mesma onde ficava (fechou entretanto) a The Travel Bookshop, que serviu de inspiração para a livraria que aparece no filme Notting Hill, com Hugh Grant e Julia Roberts.

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Detive-me por um minuto num duo de jazz, que tocava num wok como se fosse um vibrafone, e avancei depois para o letreiro. Como antecipara, foi Rosie, uma senhora já com uns sessenta anos, quem me recebeu. Sabia o nome dela e nesse momento admiti padecer de um distúrbio: saber o nome da proprietária de uma pequena livraria especializada em gastronomia, em Inglaterra, que nunca visitara, era um sintoma grave da minha obsessão com a literatura gastronómica. Na verdade sabia mais do que isso: sabia quem haviam sido as suas antecessoras, uma delas Clarissa Dickson Wright, que mais tarde se tornou famosa no saudoso programa da BBC “Two fat ladies”, e que já nesta altura revelaria uma cultura enciclopédica.

A livraria não era grande, embora forrada de livros de alto a baixo, como devem ser as livrarias. As estantes dividiam-se sobretudo por cozinhas do mundo (Japão, EUA, Ásia, Itália, etc) e por tipo de produtos (carne, peixe, pão, queijos, vegetais).

Surpreendeu-me sobretudo todos os livros estarem novos, cheirosos e brilhantes, e não se tratar de mais uma daquelas lojas de nicho, orgulhosamente bafientas e amarrotadas, que procuram vender objectos mal tratados como se fossem antiguidades raras. Mas não me surpreendeu Rosie, vestida de forma simples, pose séria, prestável mas pouco simpática, uma sexagenária britânica letrada.

Quando a abordei fazia o inventário dos livros, debatendo com uma funcionária a classificação de uma obra sobre queijo Camembert. Ousei interrompê-la para lhe pedir conselho. Queria um livro sobre vegetais, que incluísse informação relativa à produção e à confecção. “Temos vários ali no sector dos livros vegetarianos. Mas este é excelente”, disse apontando para um que se encontrava no lugar das novidades. Sugeriu Wild Garlic Gooseberries and Me (Alho Selvagem, Groselhas e Eu), de Denis Cotter, acabado de ser publicado, uma obra de arte: lindo, informado, científico, literário e cheio de receitas.

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As escolhas incluíram ainda dois clássicos. The Physiology of Taste (A Fisiologia do Gosto), do pai dos gastrónomos, Jean-Anthelme Brillat-Savarin, numa edição da Penguin. E ainda Japanese Cooking, na edição comemorativa do 25º aniversário. Já na altura de pagar, um livro sobre o mítico restaurante Chez Panisse, na Califórnia, e sobre a sua fundadora, Alice Waters, a mulher de quem se diz ter ensinado os americanos a comer bem (e isso, sobretudo há uns 40 anos, era comer como os franceses, naturalmente), poisado sobre o balcão, acabou por fechar a conta, que nesta altura já ultrapassava as 60 libras.

Os leitores mais avisados, dirão: “Tudo isso há na Amazon.com. Não era necessário ir a Londres.” E logo acrescentarão: “Poupava tempo, poupava energia – e poupava dinheiro”. Ora, eu fiz o exercício de esclarecer estas suposições, sendo que eu próprio as supunha. Pouco depois de chegar a Portugal, simulei a compra dos referidos livros na maior livraria da Internet. E a verdade é esta: todos eles existiam na Amazon e as diferenças de custos não justificariam, de facto, a opção pela compra in situ. Na loja da Internet o total era de 77,61 libras, na Books for Cooks foi de 74,97.

Mas pode-se nesta, como noutras situações, recordar que perdura em cada adulto uma criança. Nenhuma criança se emociona com uma pista de carrinhos, no monitor de um computador, acabada de comprar. Há um instinto – porventura é isto o consumismo – que faz com que tenhamos um prazer especial nesta troca directa: eu dou o dinheiro e quero ter o meu brinquedo. No momento. Mesmo que o largue logo a seguir.

Books for Cooks

Há ainda outra coisa que a Internet não nos dá: o delicioso cheiro a comida da Books for Cooks. No final das apertadas instalações, há uma pequena cozinha aberta, onde todos os dias se experimentam receitas de um dos livros ali vendidos, para quem quiser fazer uma pausa para almoço. Soube entretanto que todas as manhãs, todos os dias, decorrem aqui workshops sobre diversas cozinhas do mundo, da libanesa à italiana, com chefes e autores.

Lamentei em particular falhar o dia em que Dennis Cotter, mais o chefe e co-proprietário da Books for Cooks, Eric Treuillé, iriam experimentar três receitas do livro Wild Garlic. Resta-me o livro. E não é pouco.

3 thoughts on “Books for Cooks. A livraria mais saborosa de Notting Hill

  1. Que bela descrição! Sabes o que é que gostei mais nesta livraria – um espaço de peregrinação para mim também, onde volto e hei-de voltar sempre que vou/for a Londres? Foi identificar, prateleira sim, prateleira não, livros que tenho ou que ambiciono ter na minha colecção. Isto parece meio snob, mas não é. Há sítios que nos falam ao coração – e o cheiro delicioso da cozinha ajuda muito. Obrigada pela visita (A loja dos livros de viagem também era muito boa, fazia-te viajar por outros sítios). bjs

  2. Books for Cooks, rocks! (já não tenho é paciência para as enchentes de Portbello/Noting Hill). Ah e da última vez lá fui dei um salto ao Ottolenghi, lá bem pertinho. Almocei e percebi o porquê da fama do livro. Não há como não gostar daquela comida ‘Jamie Oliver meets Middle East&Mediterranean”. Obrigado pela dica do Wild Garlic. Abraço

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