Restaurante Claro!

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Alojado no hotel Solar das Palmeiras, um antigo palacete na Marginal, em Paço d’Arcos, o restaurante Claro! debruça-se sobre o Tejo, ali já imenso.

O cenário é picaresco e luminoso, a Costa da Caparica ao fundo, barquinhos balouçando na faina.

Na cozinha, está Vítor Claro – e muito bem. Apesar de ter apenas 32 anos é um chef experiente e sólido (“já sou um homenzinho”), que passou por casas como o Savoy, em Londres, ou a Herdade da Malhadinha. Fora da cozinha produz vinhos e isso nota-se na escolha da carta.

Comece-se pelo pão, que é como sempre se abre aqui uma refeição.

A pequena bola rústica, feita na casa, servida mal nos sentámos, foi do melhor pão que provei este ano – e estou a incluir na competição as baguetes bem boas que por aí andam com nomes franceses, e os orgânicos e os exóticos, e o pão da Ramalhosa e de Rio Maior e o alentejano que costumo comprar no mercado de Alvalade. Absolutamente perfeito, o miolo untuoso, elástico, poroso, a crosta crocante e dourada.

Saciada a fome com o trigo, o festim começou. “Steak au poivre” , carne mal passada, cobertura da especiaria espessa e pujante (no copo, Niepoort Port Vintage 2009). Depois, pescada com creme aveludado de mexilhão à Normanda (a acompanhar, um Hubert Lamy Saint-Aubin, Les Frionnes 2008, branco da Borgonha, delicado mas complexo).

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De resto, excelente ainda o bacalhau à Narcisa, um clássico de Vítor Claro. Julgava ser impossível apresentar um bacalhau à Narcisa sem aquele aspecto gorduroso e desarrumado de bacalhau à Narcisa.

Mas não. O lombo, cortado cientificamente, veio lascado, a pele uma tira frita, estaladiça, belíssima (dois dias depois, sonhei com ela, palavra de honra). Em redor, azeite com pimentão e uma pequena bola de esparregado de salsa, numa consistência perfeita.

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Antes dos doces, direito ainda a um cabrito assado sob lasca de trufa preta (na foto) e umas ervilhas mimosas num caldo de carne.

Noutra visita, experimentou-se ainda um ovo estrelado sobre cogumelos picados (a gema de uma cremosidade obscena, bom mas bom); salmão fumado na casa, a gordura cortada pelo ácido do molho de mostarda, os grãos conferindo-lhe textura; mais pescada com cebolinha e malagueta em molho de tomate; e, de novo, o bacalhau à Narcisa (quando um homem sonha…). No fim, toucinho de leitão com grão, auspiciosa demonstração do cozido servido aos fins de semana.

Tudo, outra vez, com notas altíssimas.

Acresce que duas pessoas pagaram ao almoço pouco mais de 50 euros, dividos por dois menus, muito pouco para a qualidade do que foi servido e para a vista que se tem do varandim cinematográfico do restaurante.

Concluindo. No Claro! faz-se uma cozinha de apresentação moderna, mas portuguesa e clássica nos sabores. Vítor Claro deve mais a Paul Bocuse e a Maria de Lourdes Modesto do que a Ferran Adrià e seus aprendizes – e isto não é mau, antes pelo contrário. Não lhe interessam grandes truques, nem pirotecnias, só coisas boas, gostosas e bonitas.

 

*A primeira das duas refeições aqui registadas foi feita a convite do restaurante e OHQCT não pagou um euro que fosse.

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