Morte à sopa de legumes

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Já vivi numa casa, com várias pessoas, onde se podiam observar comportamentos diversos em frente a um fogão, quase todos estranhos. Uma das práticas mais repetidas e perigosas era a “sopa de legumes com um toquezinho”.

Aos domingos, era quase sempre aos domingos, um gabiru ressacado, beata na boca, exclamava perante os outros gabirus ressacados: “Vou fazer uma sopa”. Assim, tchanan! Como se fosse construir com os próprios punhos a Ponte Barreiro – Chelas.

Imbuído de uma inspiração transcendental, colocava um tacho com água ao lume, abria o frigorífico, atirava lá para dentro os legumes que houvesse, acrescentava especiarias que não conseguia nomear, e ficava a olhar para aquilo a borbulhar, sentido-se Picasso perante Guernica.

Salvo raras excepções, no final, os meus companheiros elogiavam a criação, mais educados do que convencidos, e eu divergia: “Está uma bosta”.

O erro do cozinheiro gabiru é, contudo, bastante comum. Não sei bem porquê, muitas pessoas pensam que a sopa é um caixote para onde se pode despejar tudo – e que quantas mais coisas se despejar, melhor. A trituração dá-lhes, porventura, a ilusão de que acabará tudo no estado líquido, com uma cor esverdeada e um sabor que será sempre de legumes.

Ainda na outra semana, perguntei ao tasqueiro onde por vezes almoço:

– De que é a sopa, Fernando?

E o Fernando, estupefacto, como se lhe perguntasse o que leva o vinho:

– Oh pá, é de legumes, havia de ser de quê!

– Que legumes, Fernando?

– Legumes, sei lá. Come e cala-te.

O Fernando faz boas sopas e muitas outras coisas, porque é um cozinheiro experiente e competente. Mas o gabiru pós-universitário é capaz de juntar na base couve e feijão verde e grelos, e a sopa acaba num esparregado aguado e indistinto.

Já tentei doutrinar alguns gabirus. Em vão. Um dia, fiz uma sopa de feijão encarnado. Chamei o gabiru.

– Vem cá, oh gabiru! Prova esta sopa… sem a beata na boca.

– Eh pá, está nice, chef Felner!

– Adivinha o que leva?

– Grão leva de certeza…

– Feijão.

– Só?!

– Na verdade, minto. Foi cozido com louro e dois grãos de cravinho. E no final acrescentei-lhe azeite.

– Só?! Vai mangar com outro, chef Felner.

One thought on “Morte à sopa de legumes

  1. Ah ah ah, sofro dessa cena do gabiru, menos a beata na boca. Até cozinho bem a maior parte das coisas e adoro cozinhar, mas a sopa sabe sempre a blagh.

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