Línguas de pato

As senhoras do restaurante Grande Palácio, já citado n’O Homem que Comia Tudo, estavam particularmente mal dispostas.

“Não há lugar, não há lugar!”, barafustou, logo a abrir, a Segunda Empregada Mais Antipática de Todas.

Depois veio a Primeira Empregada Mais Antipática de Todas, com a sua franjinha em harmónio, e mostrou por que razão é a primeira empregada mais antipática de todas.

Depois de uma longa espera, nas minha costas, bufava-me no pescoço de cinco em cinco segundos:

“Já está? Já está? Já está?”

Sentindo-me coagido, precipitei-me para as línguas de pato.

“Só?!”, vomitou, então.

A verdade é que esperava algo mais substancial. As únicas línguas que provara haviam sido as da vaca e a de uma ou outra mulher. Mas a língua do pato não tem nada a ver com as de ambos os mamíferos. No seu interior há uma cartilagem, e depois da cartilagem há um osso. O que se come, o que se chucha, é uma fina camada gelatinosa, sem um sabor muito definido.

O prato, no entanto, revelou-se agradável. Ao contrário do que é usual, as línguas do Grande Palácio não são fritas, surgindo antes em salmoura, misturadas com talos crocantes de couve mostarda. No molho, sobressai a soja e o extraordinário aroma torrado do óleo de sésamo, com malagueta fresca cortada em juliana.

Como sempre, o pior no Grande Palácio é a entrada. O tratamento é mais severo do que o OE para 2013; as empregadas são mais rabugentas do que Vasco Pulido Valente. Mas uma pessoa acaba sempre por sair feliz e por voltar.

Assim fosse o desenlace do país.

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