Restaurante Turkish Kebab House

A primeira vez que fui à Turkish Kebab House, na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, há uns dois anos, o dono, alto e austero, andava à nora para dar vazão ao serviço. Não que houvesse muito serviço, mas o negócio era recente e ele parecia uma mente geneticamente confusa: baralhava pedidos, atrapalhava-se com as contas, perdia-se em conversas com os clientes.

“Queremos ter qualidade e, no futuro, vem para cá uma cozinheira da família, irmã da minha mulher, que vai fazer só comidas típicas da Turquia”, garantiu-me, depois de uma palestra biográfica (“antes de abrir o restaurante vendia tapetes”), enquanto uma fila impaciente se formava até à porta e um brasileiro esbaforido aviava menus.

Em todo o caso, percebia-se já um sentido de missão, com pouca margem para o ecumenismo. A cozinha da TKH, cem por cento halal, está condicionada ao que a lei islâmica estabelece em matéria de alimentação — e isso inclui a ausência de bebidas alcoólicas e regras sobre os animais elegíveis (porco de fora) e o modo como eles são abatidos.

Na visita mais recente, este fim de semana, o dono já não estava atrás do balcão. Nem o rapaz brasileiro. No seu lugar encontrava-se agora uma mulher de hijab, o lenço preto justo deixando ver apenas o rosto fechado e mudo. Movia-se do espeto vertical para a tostadeira, da tostadeira para o balcão, do balcão para a caixa registadora. E tudo fluía muito rapidamente e tudo estava excelente e eu pensei se seria esta a famosa cunhada talentosa vinda da Turquia.

A miudagem bateu-se primeiro com as chamuças, a massa fina e estaladiça, um jacto de molho de iogurte por cima. Chegaram depois os döner kebab e atingimos todos o êxtase. O pão pita fora prensado na altura— excelente; lá dentro, a carne surgiu bronzeada da longa exposição naquele magnífico espeto gorduroso; o trio de crocantes (cebola, couve roxa e lascas de cenoura) dava textura e frescura ao conjunto; e o molho de iogurte (com extra-spicy de malagueta para os pais) ligava tudo maravilhosamente.

[A ideia de colocar a carne do kebab dentro de uma pita surgiu na Alemanha, como forma de a comunidade emigrante turca adaptar a sua comida aos autóctones. E é bem verdade que foi em Berlim que comi dos melhores döner kebab de sempre e que um döner kebab é das melhores coisas que se pode comer em Berlim. Mas atenção: os da TKH, nas mãos da senhora-suposta-cunhada-do-dono, não lhes ficam atrás. Só se lamenta, como notou o camarada Miguel Pires, no seu livro Lisboa à Mesa, a rara existência de kebab de borrego, dominando a vitela e o frango. A gerência justifica a opção com o facto de os portugueses serem pouco propensos ao bicho e ao seu odor.]

Como complemento, veio também um pratinho de lentilhas com açafrão-da-Índia e folhas de coentros, espécie de daal, embora menos pastoso do que seria de esperar; e uns camarões fritos, bem picantes, que a Sílvia engoliu sem deixar vestígios.

Recomenda-se ainda, de anteriores visitas, os rolinhos de queijo feta, mais o falafel, à base de grão de bico demolhado e moído, aqui em forma de pequenos hambúrgueres.

Quando já estávamos a pagar, no fim do almoço, apareceu por fim o patrão, vestes islâmicas impecáveis, como se estivesse a chegar da mesquita. De trás dele surgiram filhos, muitos, com quem ralhava carinhosamente. A passagem foi rápida, quase só uma marcação de posição, sem chegar a desestabilizar o sítio.

É deixar a senhora trabalhar.

Comida: ★★★★★

Ambiente: ★★★✪✪

One thought on “Restaurante Turkish Kebab House

  1. Fui lá ontem experimentar, mas acho que tive azar. Como não havia kebab de frango, comi as falafel, mas eram das falsas, daquelas que parecem mais discos que bolinhas, têm mais gordura que substância e são aquecidas em vez de fritas na hora, o que ainda ajuda mais ao sabor a gordura…o pão era excelente, os vegetais muito acima da média, o molho muito bom, mas não deu para compensar a má qualidade do ingrediente principal.

    Ainda voltarei para testar o frango e as outras coisas sugeridas no post, mas falafel nunca mais😦

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