Amem a Lamen

Frequentemente, quando estou triste e sozinho, vou comer uma sopa lamen ao balcão do Assuka, na Rua de S. Sebastião da Pedreira. Às vezes também vou quando estou alegre e acompanhado. Mas não é a mesma coisa. É preciso estar debilitado para sentir toda energia de uma lamen.

Como acontece com a maioria das sopas asiáticas, seja a phô vietnamita ou a tom yum tailandesa, a magia da lamen está no caldo: translúcido, abundante, cheio. A segunda coisa mais importante é a massa ‑ os noodles. Os do Assuka são feitos na casa e são excelentes. O incansável e conhecedor Francisco Lopes, dono do estabelecimento, cuida dos noodles com carinho, nunca lhes tira os olhos de cima, nunca os deixa cozer demais.

A miso lamen, a minha preferida entre as lamen, leva também pasta de soja. Fica mais explosiva, é lamen forte, lamen para adultos. Às primeiras colheradas o vapor sobe pelo septo nasal, ouvidos, olhos; minutos depois, o líquido já entrou no sangue, já subiu ao cérebro, já mexeu com os neurotransmissores, já nos alegrou.

Ligeiro problema (1): sair com a roupa incólume. Os noodles compridos da lamen salpicam facilmente as camisolas das pessoas, sobretudo das pessoas iniciadas. Ligeiro problema (2): A lamen obriga a uma sucção considerável, difícil de executar sem ruído.

Uma forma de atenuar isto é comer com a colher numa mão e os pauzinhos na outra. Prende-se a massa com os pauzinhos, mas a colher vai sempre atrás, acondicionando o fim da massa, ajudando a içá-la em segurança até à boca. Sem medos.

Vão lá, sorvam, sejam felizes.

PS: Acho uma injustiça e uma pena estar tão sozinho neste reconhecimento às lamen do Assuka (honra seja feita à Inês Meneses, que escreveu sobre o assunto na Sábado, e ao David Lopes Ramos, que tanto gostava do sítio). Não há outro restaurante em Lisboa (no país?), segundo sei, que faça algo aproximado. E mesmo no estrangeiro compara com os melhores. No ano passado fui ao Momofuku (ao mais baratinho…), do célebre chef David Chang, em Nova Iorque, provavelmente o local onde se deveria comer a melhor lamen (ou ramen, como eles lhe chamam) do Ocidente. A experiência foi, de alguma forma, decepcionante.  

5 thoughts on “Amem a Lamen

  1. Viva. Adorava a sopa lamen (e os gyoza, os primeiros que comi) na julgo que primeira encarnação do Assuka, ali na Janelas Verdes. Agora, isso da decepção do Momofuku é que me decepciona também; não conheço, e pelo andar da carruagem não hei-de conhecer tão cedo, mas as histórias, receitas e dicas sobre ramen do primeiro número da revista deles, a Lucky Peach, são espectaculares.

    • Boas, a decepção do Momofuku tem certamente que ver também com a sopa que escolhi e a circunstância de conhecer já as lamen do Assuka. Mas o sítio é excelente, muito em conta, boa onda e merece a visita. Sim, esse número da Lucky Peach é espectacular.

  2. Olá Ricardo. Escrevo do Brasil, donde temos uma gigante comunidade asiática, especialmente japonesa. Posso falar com propriedade, sou casado com uma.
    Comemos lamen aqui em São Paulo, e adoramos. Em breve estaremos em Lisboa e estava preocupado em achar uma casa que oferecesse essa maravilha. Seu texto parece que poderá nos salvar, espero que o lamen ainda esteja lá e ainda tenha a qualidade relatada. Obrigado

    p.s.: pelo convívio, hoje um bom conhecedor de parte da cultura japonesa, faça barulho sem medo ao comer, os japoneses o fazem e isso é bem visto por eles quando se come o lamen, faz sim parte do ritual.

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