Viagem a Marrakech e Agadir

Mal saímos do Riad Nooer Charana, onde estamos alojados, entramos na Rue Debachi, que nos leva até à praça Jemaa el-Fna, centro social e turístico de Marrakech. São quase 22:00 e toda a gente decidiu sair à rua ao mesmo tempo. Durante o dia os termómetros nunca baixaram dos 48ºC, agora estão só 39 e a cidade parece que está a acordar.

Na Debachi, o trânsito é incrível: pessoas, burros e motoretas misturam-se sem ordem, tornando a caminhada numa aventura. As rasantes milimétricas sucedem-se, o ar cheio de buzinas e poluição, para absoluta indiferença de vendedores de rua e de um sujeito de gatas sobre o qual outro sujeito despeja baldes de água fria.

Comerciantes em lojas do seu tamanho dormem de porta aberta para a rua, espojados no chão de pedra e pó. Vêem-se bancas de ovo e batata cozida, de bolinhos fritos, de pão marroquino, de especiarias: anis, canela, pó de caril marroquino, cominhos. E carroças com pilhas de frutas: alperce, cerejas, bananas, figos, melancias.

Apesar do omnipresente dióxido de carbono, os aromas vão-se alternando. De repente, cheira a peixe frito; uns metros à frente a atmosfera refresca com o perfume da menta, as folhas frescas expostas em montes no chão; ao lado, uma criança assa maçarocas de milho; na esquina em frente, uma fila de jovens marroquinos espera pela vez num balcão de sumos de fruta, muito popular e despachado (toda a gente bebe da mesma caneca de plástico).

Por fim desembocamos na praça, um terreiro largo e plano, pontilhado de luzes fracas. Temos fome e temos um destino. Mohamed, o empregado do riad, havia aconselhado a tenda número 31 da Jemaa el-Fna. Antes, bebemos um sumo de laranja docíssimo (4 dhrs) numa das bancas especializadas e um bolo de amêndoa magnífico que uma criança nos vende (1 dhrs).

O 31 é o restaurante mais procurado da Jemaa el-Fna pelos próprios marroquinos. Bancos corridos contornam a cozinha ao ar livre e as pessoas aguardam vez, de pé, em redor. Pedimos o que os outros pedem. “Saucisses”, pequenas salsichas de borrego picantes; salada de tomate; o “sauce” ou “suce”, um molho de especiarias frio para ensopar o pão marroquino; azeitonas, verdes e maduras, estas já em passa, enrugadas, extraordinariamente perfumadas; e tajine de frango. Tudo muito bom.

Mercado de Agadir

Depois de visitarmos Taghazoute, na costa, regressamos a Agadir para apanharmos o autocarro de regresso a Marrakech. A cidade combina turismo balnear, indústria pesqueira e alojamentos sumptuosos, como os palácios à beira mar dos reis do Kuwait e da Arábia Saudita. Agadir é também, porventura, o sítio mais internacional e liberal de Marrocos. Proliferam McDonalds, Pizza Hut e discotecas cheias de prostitutas.

O melhor mesmo, contudo, é o magnífico souk da cidade, que fica a 500 metros da estação rodoviária. Na zona norte do mercado vendem-se tartarugas, porquinhos da Índia, camalões – ao lado de bancas de especiarias, calçado e bijuteria. Na zona sul, há  frutas e legumes. Maçãs pequenas, melancias, meloas, figos, tâmaras, alperces; cenouras em rama, ervilhas, feijão verde, cebola roxa, beringelas, courgettes bebés; mais especiarias, sempre em pirâmides muito perfeitas, muito coloridas; frutos secos e também chás. Ao lado, encontra-se a ala de aves vivas: patos, galinhas e galos passeiam livremente. O cheiro não é agradável, mas o sítio é extraordinário.

Para quem quiser comer, aconselha-se o restaurante nº 6, junto à porta nº 1 do mercado (sim, os marroquinos gostam de números…). O empregado chama-se – adivinhou – Moahmed e, ao perceber que somos portugueses, faz um cumprimento surpreendente: “Rádio Comerciaaal….” A pronúncia e a entoação são perfeitos. Há-de explicar que era marinheiro e cruzou-se com portugueses (que ouviam a Rádio Comercial, subentende-se) e ainda os visita de vez em quando. O prato da casa é fritada de peixe: camarões da costa, sardinhas, carapaus pequenos e cherne, tudo crocante e fresco, acompanhado de pão marroquino. Há também tajines, aquecidas no corredor do mercado.

No final, bebemos chá, servido à maneira berbere. À parte, Mohamed traz um raminho de menta fresca, com o qual vergasta a mesa, para que liberte os aromas antes de imergir no bule.

Cabeça de carneiro na Jemaa el-Fna

De regresso à Jeema el-Fna. As cabeças de carneiro têm uma carne esponjosa.

Na despedida de Marrakech tinha de experimentar as cabeças de carneiro da Jemaa el-Fna. A banca está sempre apinhada de locais. A cozinha é a céu aberto, as mesas em redor, corridas, com vista sobre os enormes tachos. Em exposição estão meia dúzia de cabeças de caprino, a dentição e as línguas bem visíveis. Mas é o recheio – leia-se, os miolos – que toda a gente quer comer. Para mim é uma “petit téte“. O chef retira a cabeça do caldo do tacho, onde esteve a cozer, e lasca-a finamente, mesmo ali, antes de ma servir. A mulher ao meu lado, lenço na cabeça, fica em suspenso, olhando discretamente para a minha cara contorcida, enquanto dou a primeira garfada no cérebro retalhado. Depois, ri-se e diz qualquer coisa para o marido, que simpaticamente me aconselha a juntar um pó (caril marroquino?) e a acompanhar com chá, para cortar o bedum. Provo também a sopa, um creme de batata e tomate com grão, massinhas e salsa – muito saborosa.

À saída, fico a olhar o restaurante ao lado, muito concorrido, onde meia dúzia de jovens fazem fila. A especialidade é pão árabe com batata, ovo cozido e um molho aromático e espesso. Os autóctones chamam-lhe o McDonalds marroquino, mas por enquanto a Jeema el-Fna continua a resistir à globalização. Graças a Deus. Ou a Alá.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s